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Escrever bem não tem nada a ver com ortografia. Basta você
ver como escreve a maioria dos que escrevem ortografia perfeitamente, isto é, seguindo todas as regras. Mediocridade,
quase sempre. Já Yeats, o grande poeta irlandês, um dos maiores do mundo,
escrevia tudo errado ortográfica e gramaticalmente. Isso no tempo em que tudo
era rimado e metrificado.
Repito, isso de escrever gramatical ou ortograficamente
certo nada tem a ver com escrever bem. Tem a ver com sensibilidade em suas
várias formas. O admirável Rubem Braga, uma perfeição de estilo, nos
aconselhava sabiamente: “Quando você tiver uma dificuldade gramatical, não
quebra a cabeça não. Dá uma voltinha”.
A que vem isso? A nada. Ou a tudo. Minha implicância com
gramatiquismos e gramatiquices começa com a crase, que o poeta Ferreira Gullar
diz que “não foi feita pra humilhar ninguém”. Tem razão: a crase foi feita pra
humilhar todo mundo.
Por que todo mundo erra na crase? Já vi crase “errada” em
placa de mármore de ministério. E estou vendo aqui, debaixo do meu nariz, na
meia dúzia de quilômetros em volta das obras do Metrô, uma centena de cartazes
da Odebrecht, a poderosa empreiteira, cheia de agrônomos, engenheiros,
calculistas e, possivelmente, gramáticos: OBRAS A 100 metros , OBRAS À 250 metros . DESVIO a 200 metros . OBRAS à 300 metros . A Odebrecht
emprega a crase por metragem.
Repito-me: por que todo mundo “erra” na crase? Uma regrinha
idiota que qualquer idiota aprende num minuto. E esquece no minuto seguinte.
Porque é artificial, inventada pelos gramáticos.
Exemplo? À bessa, que agora virou à beça (por quê?), era uma
palavra só, abessa, que os sábios da escritura (Camões) dividiram em duas pra
poder tascar a crase em cima de uma delas.
(fonte: Veja, 15 de julho, 2009)
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