domingo, 28 de junho de 2009

Guia do Brasileiro em Paris


Você já deve ter lido muitos livros de viagem (tá, bom, eu sei, não leu, mas deixa eu começar o texto assim, ok?), mas nenhum como este Guia do Brasileiro em Paris, de Mariléa de Castro (Artes e Ofícios Editora, 2008). Ao contrário de outros, este é inovador, diferente, gostoso e informativo.

Inovador
O livro de Mariléa é inovador pois não se limita a dar dicas de lugares para visitar. A autora realmente ama a cidade francesa e escreve para todos aqueles que desejam (ou já desejaram) muito conhecer Paris mas que, como ela, não têm tanta grana assim. Na verdade o livro bem poderia se chamar Guia do Brasileiro Pelado em Paris. Não é exagero, Brasileiro Pelado é uma figura criada pela própria autora para se referir aos que só podem ir pra Europa contando suas moedinhas depois de quebrar o porquinho (ou seja, quase todos nós). Não por acaso, o subtítulo é: Para aproveitar o máximo e gastar o mínimo.


Diferente
O Guia já começa de uma maneira inusitada. A autora instiga o leitor a se mexer, mostrando que, se ele não foi a Paris ainda, é somente porque ficou inventando desculpas esfarrapadas até agora. A introdução é pura motivação. Até quem nunca pensou em colocar os pés em Paris, como eu, fica tentado a conhecer a capital francesa. O tom que impera no resto do livro é de um bate-papo com o leitor, sem jamais descuidar da informação precisa.


Gostoso
A descrição de cada lugar não é meramente informativa, cada itinerário do Guia é um verdadeiro passeio pela cidade. Mariléa é realista e nos mostra que problemas, dificuldades e contratempos fazem parte de qualquer viagem, mas, no caso de Paris, os obstáculos apenas acrescentam um sabor de aventura ao roteiro. Ela conta suas roubadas e dá conselhos baseados nas suas boas e não tão boas experiências (lembre-se: tudo é aventura).




Informativo
Escrito de forma bastante pessoal, o Guia pode ser quase considerado um diário de viagem. Mesmo assim, informação precisa não falta no livro: desde a documentação que você tem que providenciar ao tomar a decisão de viajar (o que certamente deve ocorrer ao longo da leitura) até o momento da volta, passando por hospedagem, alimentação e (principalmente!) ga$to$, tudo está detalhada no Guia, com telefones, endereços, mapa das linhas de metrô e o que mais for preciso para o sucesso da sua viagem (até mesmo dicas sobre como arrumar a mala).

Nas palavras da autora:
Nos guias de viagens, quem é que nos conta a VERDADE mesmo – aquelas insidiosas, reles e constrangedoras miudezas que fazem a vida funcionar e a pessoa sobreviver no estrangeiro e cujo desconhecimento é que, em última análise, cria o vago bloqueio nosso de aventurar-nos pelo desconhecido?
As pessoas deixam de viajar não por medo de ficarem sem dinheiro na Europa ou se afogarem no mar Egeu ou, ainda, terem pneumonia no inverno. É pelo receio de não saberem como é que se chega, como funcionam as coisas, como é que se pede informações, como se faz para telefonar, quanto custa um café com leite ou um rolo de papel higiênico. Em sumo, se eu vou sobreviver sem fazer papel ridículo ou me sentir perdido.


Mais um trechinho, agora de um capítulo sobre alimentação:
Espírito de uma terra onde o comer não é pecado nem é feio, onde o barroco nunca deitou raízes, com seus dilemas cruciantes (Uma tarte-aux-pommes ou o meu regime?), e a Inquisição não teve as tintas mórbidas da Península Ibérica. A herança vital dos gregos e romanos resistiu sob o asceticismo e os esquálidos modelos medievais. (Está certo, os santos das fachadas góticas são magérrimos. Já os gárgulas...)


Lá pelas tantas, a própria autora reconhece o valor do livro, ao dizer, num capítulo sobre as opções de transporte: Quase tenho remorsos de fazê-lo chegar tão informadinho a Paris, roubando-lhe o friozinho no estômago.

O que já disseram:

Djegovsky:
É mais que um guia, é um companheiro de viagem.


Contras: os diversos erros de revisão que não precisavam estar lá.


4 estrelinhas


segunda-feira, 22 de junho de 2009

Sinédoque, Nova York



É o primeiro filme dirigido por Charlie Kaufmann, roteirista dos geniais Quero ser John Malkovich, Adaptação e Brilho Eterno de uma mente sem lembranças. O que esperar deste Sinédoque? Quem já viu seus outros trabalhos sabe que brincadeiras de metalinguagem e humor nonsense são comuns nos seus roteiros, e este não foge à regra. Mas o que antes parecia ter funcionado tão bem, agora decepciona.

No filme temos Caden Cotard, um diretor de teatro desesperado com sua mortalidade interpretado pelo sempre nojento (embora eterno queridinho da crítica) Phillip Seymour-Hoffman. O filme até começa bem, com diálogos ótimos, principalmente os entre sua mulher e sua filha. Até que Cotard ganha uma verba enorme para encenar uma nova peça, que decide ser sobre sua própria vida. A partir daí o espectador começa a se perder. Nos outros roteiros de Kaufmann, o espectador se segura em uma corda para conseguir ir até o final são e salvo. Em Sinédoque, a tal corda é um fino barbante que logo se parte, e deixa o espectador confuso, perdido e, principalmente, entediado. Às vezes ele pode achar que recuperou o fio condutor, mas logo se vê no escuro de novo.

O problema todo é a linguagem se Sinédoque fosse um texto seria um texto sem qualquer pontuação que pudesse orientar o leitor para piorar as coisas também seria um texto com uma sintaxe confusa com cada vez menos conectores entre palavras frases sem coesão coerência sem um fio condutor as repetições poderiam dar uma luz mas a insistência em ser pouco convencional não traz nada novo essa insistência em voltar ao elemento anterior que na verdade é posterior sem qualquer linearidade possível um texto com tempos verbais que não faziam sentido deixa-se de aproveitar tudo que poderia haver de interessante no filme para se ater ao que poderia haver de interessante no filme cada vez menos elementos precisos a maquiagem é boa a fotografia também a montagem não tem culpa a culpa é do roteiro mesmo mas Kaufmann é um grande roteirista jamais se perderia quem se perde é o espectador isso mesmo é posto em dúvida a confusão é proposital não é às vezes a convencionalidade faz falta que faz a convencionalidade seria um texto longo demais ninguém gostará de ler até o final afinal tem mais de duas horas e o resultado é assim o final tenta a redenção do homem e do filme do roteirista de todos mas era tarde demais.


Pois é, não entendi lhufas do filme.
Mas eu sou eu.


Nota final: 3,5

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Cinema é uma droga

Sim, me ocorreu isso outro dia.

Cinema é como uma droga no sentido de que nos faz bem, traz um sentimento novo e inusitado, bastante prazeroso, que nos faz pedir por mais. Com o tempo, contudo, precisamos de doses maiores para alcançar o mesmo nível de prazer de outros tempos. Assim, quanto mais filmes assistimos, menos impacto eles têm.

Lembro da primeira sessão de cinema da minha vida. Foi no Cine Center, do Centro Comercial (hoje Shopping) João Pessoa. Não era bem um filme, mas uma compilação de desenhos animados curtos da Disney. À época já tinha visto Mickey, Minnie, Pateta, etc, na tevê. Mas naquela sala escura e cheia dum silêncio esquisito não era a mesma coisa. Tinha cinco anos de idade e fiquei embasbacado com aquela tela enorme e aquele som alto. Aquilo me afetou de modo que nunca mais pude ver TV da mesma maneira.

Os anos passaram e vi outros filmes que me embasbacaram, chacoalharam, desnortearam, atropelaram. O problema é que, depois de uma milha de filmes, comecei a querer mais, como uma droga que tinha seu efeito amenizado com o uso frequente. É uma decepção não se emocionar mais com os filmes e prestar mais atenção na fotografia, por exemplo.

Talvez um tempo de abstinência me faça bem.