quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Milan Kundera, capas


Cada um dos meus romances poderia ser intitulado A insustentável leveza do ser ou A Brincadeira ou Amores Risíveis, os títulos são intercambiáveis, eles refletem o pequeno número de temas que me obcecam, me definem e, infelizmente, me restringem. Fora esses temas, não tenho nada mais a dizer ou escrever.

















segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

King sobre Kubrick

Sou feio mas sou milionário
Em uma entrevista, o escritor best-seller Stephen King falou sobre o que achou da adaptação para o cinema que o consagrado cineasta Stanley Kubrick fez de seu livro O Iluminado, considerado por muitos um excelente filme.


O que você achou da adaptação de Stanley Kubrick do livro O Iluminado?








KING
Muito fria. Sem qualquer senso de investimento emocional na família da parte dele. Eu achei o tratamento de Shelley Duvall como Wendy... nossa, um grande insulto às mulheres. Ela é basicamente uma máquina de gritar. Não há nenhum senso de seu envolvimento na dinâmica da família. E Kubrick não parece ter qualquer ideia de que Jack Nicholson estava interpretando o mesmo papel de motoqueiro psicopata de todos os outros filmes que ele fez  - Hells Angels on Wheels, Rider O Wild Ride, The Rebel Rousers, Easy Rider. O cara é louco. Então, onde está a tragédia se o cara aparece para sua entrevista de emprego e ele já está maluco? Não, eu detestei o que Kubrick fez com o livro.

Kubrick ficou muito preocupado com a crítica

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Pergunte ao pó

Trecho do livro Pergunte ao pó, de John Fante (Editora José Olympio, 2003, tradução de Roberto Muggiati).


O protagonista, Arturo Bandini, é um aspirante a escritor que mora numa espelunca, sempre cheio de dívidas, mal conseguindo dinheiro pra comer. Aqui, se relaciona com um dos vizinhos.


Eu o xingava com palavrões violentos; logo perdi todo o respeito por ele. Sacudia sua cabeça vermelha e inchada, os grandes olhos com um ar deplorável. Mas nunca me ofereceu sequer os restos do seu prato. Dia após dia, eu trabalhava, contorcendo-me com o odor torturante de costeletas de porco fritas, bifes grelhados, bifes fritos, bifes à milanesa, fígado acebolado e todo tipo de carnes.

Um dia, sua mania de carne passou e a mania de gim voltou. Embriagou-se durante duas noites diretas. Podia ouvi-lo tropeçando pelo quarto, chutando garrafas e falando sozinho. Depois sumiu. Passou outra noite fora. Quando voltou, o cheque da sua pensão fora gasto e ele havia, de alguma forma, em algum lugar, não se lembrava, comprado um carro. Era um imenso Packard, com mais de vinte anos. Parecia um carro fúnebre, os pneus gastos, a pintura preta barata borbulhando ao sol quente. Alguém na rua Principal lhe vendera o carro. Agora estava quebrado, com um grande Packard nas mãos.

- Quer compra-lo? – disse.
- De jeito nenhum.

Estava deprimido, a cabeça estourando de uma ressaca.
Naquela noite, entrou no meu quarto. Sentou-se na cama, seus longos braços pendendo até o chão. Estava com saudades do meio-oeste. Falava de caça de coelho, de pescaria, dos bons velhos dias quando era garoto. Começou então com o assunto da carne.

- Que tal um bife grande e grosso? – disse, os lábios frouxos. Abriu dois dedos. – Grosso assim. Grelhado. Um monte de manteiga por cima. Queimado apenas o suficiente para dar um travo. Gostaria de um bife assim?

- Adoraria.
Levantou-se.
- Então venha comigo, vamos atrás de um bife.
- Você tem dinheiro?
- Não precisamos de nenhum dinheiro. Estou com fome.
Apanhei meu suéter e o segui pelo corredor até a viela. Entrou no carro. Hesitei.
- Aonde está indo, Hellfrick?
- Vamos lá – falou. – Deixe por minha conta.
Entrei ao lado dele.
- Sem problema – falei.
- Problema! – escarneceu. – Estou lhe dizendo que sei onde podemos encontrar um bife.

Rodamos ao luar de Wilshire para Highland e de Highland passando por Cahuenga Pass. Do outro lado, estava a planície achatada de San Fernando Valley. Encontramos uma estrada deserta saindo do calçamento e a seguimos através de eucaliptos altos até fazendas esparsas e pastos. Depois de um quilômetro e meio, a estrada terminava. Arame farpado e postes de cerca apareciam no brilho dos faróis. Hellfrick laboriosamente deu meia-volta no carro, colocando-o de frente para a estrada pavimentada que havíamos deixado. Saiu pela porta da frente, abriu a porta traseira e remexeu nas ferramentas debaixo da almofada do banco traseiro.
Debrucei-me e o observei.
- Que está fazendo, Hellfrick?
Levantou-se, um macaco na mão.
- Espere aqui.
   Passou por baixo de uma falha no arame farpado e atravessou o pasto. A uns cem metros, um celeiro destacava-se no luar. Então descobri o que ia fazer. Saltei do carro e gritei para ele. Mandou-me silenciar, raivoso. Eu o vi seguir na ponta dos pés em direção da porta do celeiro. Eu o xinguei e esperei tenso. Logo ouvi o mugido de uma vaca. Era um grito que dava pena. Ouvi então um baque e um arrastar de cascos. Pela porta do celeiro, veio Hellfrick. Sobre o ombro, carregava uma massa escura, que o fazia vergar. Atrás dele, mugindo sem parar, vinha uma vaca. Hellfrick tentou correr, mas a massa escura o limitava a uma marcha rápida. E a vaca ainda o perseguia, enfiando o focinho nas suas costas. Virou-se, chutando violentamente. A vaca parou, olhou em direção do celeiro, e mugiu de novo.
- Seu imbecil, Hellfrick. Seu desgraçado imbecil!
- Me ajude – falou.
   Ergui o arame farpado a uma altura que lhe permitiria passar com seu fardo. Era um bezerro, o sangue jorrando de um talho entre as orelhas. Os olhos do bezerro estavam arregalados. Eu podia ver a lua refletida neles. Era assassinato a sangue frio. Fiquei enojado e horrorizado. Meu estômago revirou quando Hellfrick jogou o bezerro no banco traseiro. Ouvi o corpo desabar, depois a cabeça. Fiquei enojado, muito enojado. Era puro assassinato.
   Em toda a viagem de volta, Hellfrick exultava, mas o volante estava pegajoso de sangue e uma ou duas vezes ouvi o bezerro escoiceando no assento traseiro. Segurei o rosto nas mãos e tentei esquecer o chamado melancólico da mãe do bezerro, o doce rosto do bezerro morto. Hellfrick dirigia muito rápido. Em Beverly, passamos disparados por um carro preto que rodava lentamente. Era uma patrulha policial. Cerrei os dentes e esperei pelo pior. Mas a polícia não nos seguiu. Estava enjoado demais para me sentir aliviado. Uma coisa era certa: Hellfrick era um assassino, e estava tudo encerrado entre nós. Em Bunker Hill, descemos por nossa viela e encostamos no espaço de estacionamento adjacente à parede do hotel. Hellfrick saiu.
- Agora vou lhe dar uma lição de açougueiro.
- Vá para o inferno – falei.
   Fiquei vigiando enquanto ele embrulhava a cabeça do bezerro em jornais, o jogava sobre o ombro e apressava-se pelo corredor escuro em direção do seu quarto. Espalhei jornais pelo chão sujo e ele largou o bezerro sobre eles. Riu de suas calças ensangüentadas, de sua camisa ensangüentada, de seus braços ensangüentados.
   Olhei para o pobre bezerro. Sua pele era malhada em preto e branco e tinha os tornozelos mais delicados. De boca ligeiramente aberta, aparecia uma língua rosada. Fechei os olhos e saí correndo do quarto de Hellfrick e joguei-me no chão do meu quarto. Fiquei ali e estremeci, pensando na velha vaca sozinha no campo ao luar, a velha vaca mugindo pelo seu bezerro. Assassinato! Hellfrick e eu estávamos acabados. Ele não precisava pagar a dívida. Era dinheiro manchado de sangue – não para mim.
   Depois daquela noite, fiquei muito frio com Hellfrick. Nunca mais visitei seu quarto. Algumas vezes reconheci a sua batida, mas mantive a porta trancada para que não pudesse entrar. Quando o encontrava no corredor, simplesmente grunhíamos. Devia-me três dólares, mas nunca cobrei.