domingo, 21 de novembro de 2010

Intelectual Enrustido


Ele é ator - estudou arte dramática na Suíça -, diretor, roteirista multipremiado, romancista  e produtor de cinema. É um homem de ideias, um humanista (seu filme mais recente é uma denúncia contundente contra as violações aos direitos humanos na Birmânia). É inteligente e tem senso de humor. Como hobby, pinta quadros abstratos. Apenas uma coisa o impede de ser um intelectual respeitado mundialmente: seus músculos.


Sylvester Stallone é um dos intelectuais de carreira mais controvertida da história do cinema. Teve um infância difícil (foi expulso de 14 escolas antes dos 13 anos) e uma adolescência ainda pior (aos 15 seus colegas o elegeram “O mais provável de acabar na cadeira elétrica”). Começou a carreira de ator como o marginal de metrô do filme Bananas, contracenando com ninguém menos que Woody Allen.  Penou em papéis pequenos até escrever e estrelar um dos maiores sucessos da história do cinema, Rocky, um lutador. O filme, que venceu os Oscars de melhor filme e direção em 1977 marcou sua carreira para sempre, para o bem e para o mal. Foi considerado pela crítica séria na época o novo Marlon Brando. Mas crítica e público jamais conseguiram separar protagonista do filme do seu criador, e a partir de então Stallone não conseguiu mais fugir dos papéis de ação no cinema, em filmes em que seus músculos contavam mais que o cérebro. “As pessoas não me dão crédito como alguém inteligente, então porque deveria desiludi-las?”, diz ironicamente. Assim, Stallone vai vivendo na prisão que ele mesmo construiu.

Extremos
Já ganhou prêmios também concedidos a diretores consagrados como Takeshi Kitano e Abbas Kiarostami, e também é o maior campeão de Framboesas de Ouro da história, premiação que lhe deu o título de Pior Ator do Século20.
Alguns o acusam de ser pouco expressivo, mas são observadores superficiais, que não percebem as sutilezas de sua atuação, e também desconhecem o fato de ele ter paralisia facial causada pelo fórceps no seu parto, o que mantém um de seus olhos caído e seu sorriso sempre torto.


Quase todos os críticos ressaltam o paralelo entre os recentes Rocky e Rambo –  que mostram um homem velho e esquecido –  com a carreira de Sylvester Stallone. Mas não é o fato de não vender tanto quanto antigamente que Stallone foi diminuído de alguma forma. Sua grandeza apenas se consolida a cada dia, deixando seu nome na história para quem souber admirá-lo.

Pintura abstrata é hobby de Stallone
No seu filme Rambo IV, o personagem Rambo quer esquecer o seu passado e começa r nova vida do zero, até que as circunstâncias o forçam a retomar seu destino violento.
Seria um autoretrato?
Do mesmo modo, Stallone quer ser um ator, diretor e roteirista, mas as circunstâncias o fazem encarnar o mesmo personagem sempre e sempre.

Frases:
“Rambo não é violento. Eu vejo Rambo como um filantropo.”

“Na verdade eu sou uma manifestação da minha própria fantasia”.

“O único artista feliz é um artista morto.”





“Depois que eu morrer, provavelmente voltarei como um pincel.”

50 personagens mais odiados da literatura

O site Library Science Degree fez uma despretensiosa - mas divertida - lista com os 50 personagens mais odiados da história da literatura. No site há comentários sobre todos os personagens. Me pergunto quais entrariam numa possível lista nacional.

Ei-los abaixo:


1.) Bella Swan e Edward Cullen
Livro: Da série “Crepúsculo”
Autor: Stephenie Meyer

2.) Cholly Breedlove
Livro: The Bluest Eye
Autor: Toni Morrison

3.) Holden Caulfield
O apanhador no campo de centeio
Autor: J.D. Salinger

4.) Scarlett O’Hara
Livro: E o vento levou
Autor: Margaret Mitchell
Para cada fã que acha Scarlett O'Hara romântica e admirável, há um outro que acha ela uma figura completamente egoísta e repugnante, com poucas qualidades redentoras.

5.) Iago
Livro: Otelo
Autor: William Shakespeare

6.) Anita Blake
Livro: série Anita Blake
Autor: Laurell K. Hamilton

7.) Tom Buchanan
Livro: O Grande Gtsby
Autor: F. Scott Fitzgerald
Em um livro repleto de personagens intencionalmente insuportáveis, Tom Buchanan, com suas hipocrisias racistas e misóginos destaca-se como particularmente ofensivo.

8.) Heathcliff
Livro: O Morro dos ventos uivantes
Autor: Emily Brontë
Alguns fãs de "O morro dos ventos uivantes" tendem a interpretar Heathcliff como uma figura romântica, mas uma grande parte dos leitores o odeiam por seu comportamento abusivo, manipulador e negligente para com as pessoas em sua vida.

9.) Dolores Umbridge
Livro: série Harry Potter
Autor: J.K. Rowling

10.) Dorian Gray
Livro:  O retrato de Dorian Gray
Autor: Oscar Wilde
Quando Dorian Gray finalmente recebe sua mórbida punição depois de uma vida transbordando de frivolidade e hedonismo, nenhum leitor lamenta.


11.) Albert
Livro:  A Cor Púrpura
Autor: Alice Walker

12.) Ayla
Livro:  série Os filhos da Terra
Autor: Jean M. Auel

13.) John Willoughby
Livro:  Razão e Sensibilidade
Autor: Jane Austen

14.) Rhett Butler
Livro:  E o vento levou
Autor: Margaret Mitchell

15.) Karen Brewer
Livro:  série  Babysitter’s Club
Autor: Ann M. Martin

16.) Humbert Humbert
Livro:  Lolita
Autor: Vladimir Nabokov

17.) Daisy Buchanan
Livro: O Grande Gatsby
Autor: F. Scott Fitzgerald

18.) Catherine Earnshaw
Livro: O Morro dos ventos uivantes
Autor: Emily Brontë

19.) Sr. e Sra. Samsa
Livro: A Metamorfose
Autor: Franz Kafka
Quando Gregor Samsa acorda uma manhã transformado em um gigantesco inseto, apenas sua irmã Grete mostra-lhe algum grau de simpatia. Seus pais, por outro lado, reagem com desdém. Seu pai até mesmo lhe joga uma maçã que fica presa em sua carapaça. Considerando o quanto ele se esforça para cuidar deles, isto adiciona uma nova dimensão da tragédia da história de Samsa.

20.) Estella Havisham
Livro: Grandes Esperanças
Autor: Charles Dickens

21.) Robert “Sentinela” Reynolds
Livro: Marvel

22.) Broud
Livro:  Clan of the Cave Bear
Autor: Jean M. Auel

23.) Edward Rochester
Livro: Jane Eyre
Autor: Charlotte Brontë

24.) Mrs. Ferrars
Livro:  Razão e Sensibilidade
Autor: Jane Austen

25.) Bob Ewell
Livro: O Sol é para todos
Autor: Harper Lee


26.) Hamlet
Livro: Hamlet
Autor: William Shakespeare
Embora seja o protagonista, muitos leitores pensam de Hamlet como o precursor elisabetano do movimento emo, pois se lamenta constantemente sobre a sua triste vida, sem nunca realmente fazendo muito para mudar para melhor. Claro, considerando as peças de Shakespeare o que são, sua verdadeira complexidade muitas vezes desafia essa percepção.

27.) Voldemort
Livro: série Harry Potter
Autor: J.K. Rowling

28.) Patrick Bateman
Livro: O Psicopata Americano
Autor: Bret Easton Ellis

29.) Grande Irmão
Livro: 1984
Autor: George Orwell
Apesar de ser uma metáfora para um governo totalitário e não uma pessoa real, os cidadãos da distópica Oceania o consideram como tal. Agentes do Grande Irmão eram capazes de entrar na cabeça das pessoas e condená-las simplesmente por pensar contra o coletivo.

30.) Rufus
Livro: “The Lame Shall Enter First”
Autor: Flannery O’Connor

31.) Stanley Kowalski
Livro: Um bonde chamado Desejo
Autor: Tennessee Williams

32.) Emma Bovary
Livro: Madame Bovary
Autor: Gustave Flaubert
33.) Beth March
Livro: Mulherzinhas
Autor: Louisa May Alcott

34.) Napoleon
Livro: A Revolução dos Bichos
Autor: George Orwell

35.) Ignatius J. Reilly
Livro: Uma conspiração de estúpidos
Autor: John Kennedy Toole

36.) Romeo Montague
Livro: Romeu e Julieta
Autor: William Shakespeare

37.) Madame Defarge
Livro: Um conto de duas cidades
Autor: Charles Dickens

38.) Coringa
Livro: DC 

39.) O’Brien
 Livro: 1984
Autor: George Orwell

40.) Faye Greener
Livro: O dia do gafanhoto
Autor: Nathanael West

41.) Miss Havisham
Livro: Grandes Esperanças
Autor: Charles Dickens

42.) Jack Merridew
Livro: O Senhor das moscas
Autor: William Golding

43.) Robert Langdon
Livro: Anjos e Demônios, o Código Da Vinci, o Símbolo Perdido
Autor: Dan Brown

44.) Abigail Williams
Livro: As bruxas de Salém
Autor: Arthur Miller

45.) Amanda Wingfield
Livro: The Glass Menagerie
Autor: Tennessee Williams

46.) Kay Scarpetta
Livro: série Kay Scarpetta
Autor: Patricia Cornwall

47.)  Mrs. de Winter
Livro: Rebecca
Autor: Daphne du Maurier


48.) Melanie Hamilton Wilkes
Livro: E o vento levou
Autor: Margaret Mitchell

49.) Godot
Livro: Esperando Godot
Autor: Samuel Beckett
Que tipo de homem deixa seus amigos se perguntando sobre o seu paradeiro por toda a eternidade?

50.) Diabo
Livro: Bíblia
Autor: Vários

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Solo de Clarineta - Erico Verissimo

Biografias são sempre muito diferentes quando escritas pelo próprio biografado ou por um terceiro. Autobiografias costumam ser mais reflexivas e condescendentes; já as biografias abusam de detalhes da vida e da romancização dos fatos. Solo de Clarineta , a primeira parte da autobiografia de Erico Verissimo acaba mesclando um pouco todas essas características. No livro ele conta partes de sua vida desde a infância e também bastidores dos seus livros, além de fazer considerações sobre política, guerra, psicologia e outros temas. Em Solo de Clarineta são reveladas algumas curiosidades, como: o nome do célebre personagem Rodrigo Cambará, de O Tempo e o Vento era inicialmente Rodrigo Severo. Também ficamos sabendo que Eberbach, a cidade natal do Dr. Winter, personagem de O Continente, foi escolhida quase que aleatoriamente. Anos mais tarde, quando o livro foi traduzido para o Alemão, Verissimo recebeu uma carta do prefeito, convidando-o para ser hóspede oficial.  Erico tanbém foi reserva do time de futebol do Bonsucesso, em circusntâncias estranhas. Sobre O Tempo e o Vento, é interessante ver como Erico já sabia que esta seria sua obra mais importante. Sobre sua obra-prima ele diz:


“Apesar de ser descendente de campeiros, sempre detestei a vida rural, nunca passei mais de cinco dias numa estância, não sabia e não sei ainda andar a cavalo – para escândalo e vergonha de meu avô Aníbal – desconhecia e ainda desconheço o jargão gauchesco. Embora admire os trabalhos isolados de escritores como Simões Lopes Neto, Darcy Azambuja, Ciro Martins e Vargas Neto, nunca morri de amores pelo regionalismo e, para ser sincero, tinha e ainda tenho para com esse gênero literário as minhas reservas, pois acho-o limitado e, em certos casos, com um certo odor e um imobilismo anacrônico de museu. (...) Concluí que a verdade sobre o passado do rio Grande do Sul devia ser mais viva e bela que a sua mitologia. E quanto mais examinava a nossa História, mais convencido ficava da necessidade de desmitificá-la.”

Ainda sobre o regionalismo:
“Faltava aos nossos “guascas” densidade psicológica, esse tipo de conflito capaz de produzir drama. Sobre homens assim vazios – concluí, então, levianamente – era impossível escrever um romance que tivesse caráter e nervo."

Sobre a opção de ser escritor:
“Concluí que jamais viria a ser um bom desenhista, isto é, um criador. Se havia para mim alguma esperança, essa estava no quadrante das letras e particularmente no da ficção. No entanto eu insistia em apenas traduzir. Era ainda uma atitude de caramujo. Recusando produzir literatura própria, eu nada mais fazia que buscar proteção à sombra de nomes literários consagrados. De resto, refletia eu, quem no mundo poderia interessar-se pelo que eu viesse a criar, pois já chegara à firme conclusão de que me faltava talento para a poesia e carecia de cultura para o ensaio. Restava-me tentara ficção.”

Outros trechos:



“Nem tudo que acontece na vida real torna-se necessariamente verossímil quando transposto para o plano da ficção.”


“Minha mãe me mandou um prato de comida. Mal toquei nos alimentos, pois sempre achei indecente e até repugnante misturar morte com coisas de comer. O bife vinha de um animal morto. Era carne de cadáver.”


“Como pode um romancista do sexo masculino – perguntou-me alguém um dia – descrever com verdade e autenticidade os sentimentos duma mulher? Expliquei-lhe que, no meu caso, sempre que tinha que fazer isso eu procurava ser essa mulher. Meu interlocutor me olhou meio espantado e calou-se, aparentemente insatisfeito, e talvez até meio desconfiado de minha masculinidade.”

Geralmente ele elogia a maioria das pessoas que cita, mas aqui sobram algumas raras críticas:
“Ninguém negará grandeza a importância literária à obra de Ernest Hemingway. Mais de um crítico, porém, tem mencionado o fato de não se encontrar nos contos, novelas e romances desse escritor uma única personagem feminina verossímil, viva, plenamente realizada na sua condição de fêmea. Creio que isso se deve à obsessão que o grande escritor americano tinha de provar que era macho – o caçador de leões, o explorador, o aficionado das corridas de touros. No momento de descrever suas personagens do sexo oposto ele recusava, imagino, liberar seu componente feminino e meter-se no corpo delas, sentir como elas, amar como elas...
No fundo talvez isso fosse um sinal de insegurança quanto à sua própria condição de macho, o temor de que alguém pudesse pôr em dúvida sua virilidade.”


“Gilberto Freyre, que escreveu um artigo simpático mas um tanto ambivalente sobre O Continente, insinuou que o fato de eu ter escolhido um sobrado como centro do romance era um sinal de que a influência da ficção nordestina já se fazia sentida no sul do país. O ilustre sociólogo não levou em conta a possibilidade de que o autor tivesse tido em sua vida de menino um sobrado, como foi exatamente o meu caso.

 
“Minha mãe me mandou um prato de comida. Mal toquei nos alimentos, pois sempre achei indecente e até repugnante misturar morte com coisas de comer. O bife vinha de um animal morto. Era carne de cadáver.”


“Como pode um romancista do sexo masculino – perguntou-me alguém um dia – descrever com verdade e autenticidade os sentimentos duma mulher? Expliquei-lhe que, no meu caso, sempre que tinha que fazer isso eu procurava ser essa mulher. Meu interlocutor me olhou meio espantado e calou-se, aparentemente insatisfeito, e talvez até meio desconfiado de minha masculinidade.”

Este trecho é bastante inusitado:
“Conservava muito viva na memória uma cena que se passara havia uns dois anos sob os andaimes de uma construção que se fazia nas vizinhanças da nossa casa. Trabalhava nela como pedreiro um mulato de seus dezoito anos, alto e magro, com olhos de tuberculoso. Chamava-se Perez, e um de seus depravados prazeres era o de, na hora de folga entre o almoço e o turno da tarde, proporcionar aos meninos das redondezas um exibição grátis de seu falo. Éramos todos rapazotes de cinco a oito anos, quando muito. Ficávamos olhando numa seriedade silenciosa, entre assustados e curiosos, para o pênis do Perez, aquela coisa que ele tinha entre as pernas, aquele bicho latejante, aquela lingüiça viva que ele nos mostrava sorrindo, e que nenhum de nós ousava sequer tocar com a ponta dos dedos. Saíamos daquela exibição um tanto humilhados, pensando nos nossos membrinhos diminutos e comparando-os com o minhocão do pedreiro.”




quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Quase a mesma coisa - Umberto Eco

Umberto Eco escreveu um livro sobre tradução chamado Quase a mesma coisa (Record, 2007). Claro que esse é o título traduzido, o original é "Dire quasi la stessa cosa". Quem já leu trabalhos de não-ficção de Eco sabe que ele usa extenso material de pesquisa para ilustrar suas teses, o que, às vezes, pode deixar a leitura um tanto maçante. Gostaria de dizer que a leitura de Quase a mesma coisa é fluida, mas, para o leitor comum, ela empaca em insistentes detalhes acadêmicos. Mesmo assim, muitos trechos são interessantes tanto para o tradutor profissional como para o leigo. Só o fato de, em suas quase 500 páginas, o autor jamais usar a batidíssima expressão "traduttore-traditore" é um ponto para o livro. Abaixo, um trecho da obra:




“Quando comecei a trabalhar em uma editora, chegou a mim uma tradução do inglês, cujo original eu não podia controlar por ter ficado nas mãos do tradutor. Comecei, de todo modo, a ler para ver se o italiano “fluía”. O livro contava a história das primeiras pesquisas sobre a bomba atômica e a certa altura dizia que os cientistas, reunidos em determinado lugar, começaram os trabalhos fazendo “corse di treni” [corrida de trens]. Parecia-me estranho que pessoas que deveriam descobrir os segredos do átomo perdessem tempo com jogos tão insossos. Donde, recorrendo a meu conhecimento do mundo, inferi que os tais cientistas deviam estar fazendo outra coisa. Nesse momento, não sei se me ocorreu uma expressão inglesa que conhecia ou se fiz, antes, uma curiosa operação: tentei retraduzir mal, para o inglês, a expressão italiana e logo me ocorreu que aqueles cientistas fizeram training courses, ou seja, cursos de atualização, o que seria mais razoável e menos dispendioso para os contribuintes americanos. Naturalmente, assim que tive o original nas mãos pude ver que era isso mesmo e providenciei para que o tradutor não fosse pago por seu trabalho imundo."