quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A Banhista

O fotógrafo francês Stephane Lallemand fez algumas recriações de quadros famosos do pintor do século 19 Jean Auguste Dominique Ingres. Abaixo, suas versões para A Banhista e La Grande Odalisque.



sábado, 7 de novembro de 2009

Ron Mueck








Trabalhos do australiano Ron Mueck. Embora não pareçam, todos são esculturas.

domingo, 1 de novembro de 2009

Crítica arrependida


E não é que a gente muda?
Há um tempo escrevi sobre um livro da Cláudia Laitano. Falei bem, mas nunca publiquei. Fui reler e vi que tinha mudado de ideia. Desgosto dos textos dela mais e mais a cada dia. O que antes me parecia lucidez, agora me parece apenas o senso comum, e o que parecia sensatez, parece só um conservadorismo tedioso. Quem mudou? Ela ou eu? Lembro que escrevi logo depois de tê-la conhecido em um evento, o que deve ter me influenciado, já que ela foi simpática. Sinceramente, a maternidade pode tê-la deixado mais feliz, mas a tornou mais chata também.

Mesmo assim, só para reciclar lixo eletrônico, reproduzo abaixo o texto que escrevi já faz meses e com o qual hoje discordo em grande parte.

Agora eu era

O jornal Zero Hora mantinha, nas sua página 3, uma coluna diária do Luis Fernando Veríssimo. Há uns cinco anos, LFV pediu pra reduzir a carga de trabalho, então o jornal chamou outros colunistas para escreverem semanalmente ali. E foi um time de peso, pelo menos em termos de vendagens de livros. Tem o imortal Moacyr Scliar num dia, a publicitária Martha Medeiros em outro, o tenebroso David Coimbra e também a jornalista cultural Cláudia Laitano, o patinho feio da página 3, sendo a única que ainda não tinha livro publicado. O jejum acabou com Agora eu era (2008, Record, 188 páginas).

Agora eu era é uma coletânea com 61 crônicas (mais um prefácio-crônica) publicadas nos últimos cinco anos no jornal Zero Hora. Como boa cronista, Cláudia usa como ponto de partida tudo aquilo que tiver mais à mão: filmes, livros, seriados e comerciais de TV, letras de música, reportagens. A leveza com que cria os temas é que a diferencia dos demais. Assim, ela dá um jeitinho para que Chico Buarque, Harry Potter, Saramago, Homer Simpson, Guimarães Rosa, Genival Lacerda e a boneca Barbie convivam em harmonia.

Está pronto para uma comparação estúpida? Não? Então vamos lá. Ela é da geração da Martha Medeiros. Mas, ao contrário da escritora pop, é divertida sem forçar a barra; é contundente sem recorrer a ironias pesadas; tem um texto leve e descompromissado, sem a superficialidade da MM; escreve para todos, mas sem nivelar por baixo, como a sua colega de jornal; é nostálgica sem ser piegas; filosofa sem resvalar na autoajuda. Ah, provavelmente isso não é importante, mas é mais bonita e simpática também.

A capa:
A capa de Miriam Lerner e o miolo também merecem menção, sendo adequados ao espírito leve do livro.

Uma frase do livro:
A história às vezes insiste em se construir a partir de material altamente deletável.

O que já disseram:

Luis Fernando Veríssimo: Um texto límpido, com a dosagem certa de humor e seriedade, e pitadas de lirismo. Resultado: uma cronista saborosa.

Jorge Furtado, diretor de cinema: Boa memória, inteligência, ótimo texto, bom humor, personalidade, coragem. O que mais você espera de uma cronista?
Djegovsky:
É o tipo de livro que leio devagarinho, que é pra durar mais.


Trecho do livro:

Vaidade
(Cláudia Laitano)

Da série “Livros que eu gostaria de escrever (mas não vou)”: Tratado mínimo sobre a vaidade máxima – Memórias de uma jornalista cultural. Meu livrinho começaria com um pequeno ensaio histórico ilustrado por reflexões luminosas dos grandes pensadores e citações que remontariam ao Eclesiastes (“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, e coisa e tal, com perdão do clichê). Depois viria uma galeria de clássicos da literatura que tematizam a vaidade, entre eles o genial Teoria do medalhão, de Machado de Assis. (Aqui entre nós, esse conto diz mais ou menos tudo o que eu gostaria de dizer sobre vaidade. Donde, se você se interessa sobre o assunto e tem uma certa pressa, sugiro que fique lendo Machado enquanto eu não publico o tal tratado.) Depois de despejar toda a erudição que eu não tenho nos dois capítulos iniciais – o bom de planejar livros que não vão ser escritos é que a gente pode ser muito ambicioso – viria a parte realmente divertida: um minucioso levantamento das situações de vaidade escancarada que eu presenciei ao longo de toda uma vida profissional cobrindo a área de Cultura. O relato começaria com o espanto da jovem repórter ingênua diante do delírio egoico de determinadas figuras que ela costumava admirar. Passaria por casos engraçados, outros patéticos, alguns deprimentes, num longo e tortuoso aprendizado que culminaria no estágio em que nada, absolutamente nada, no terreno da autopromoção seria capaz de espantar a calejada jornalista. A cereja no bolinho seria um laudatório prefácio sobre a autora, escrito por alguma figura muito importante da cultura local – provando que mesmo os mais eloquentes críticos da vaidade alheia são incapazes de perceber quando ela lhes ataca o próprio flanco. Nenhuma atividade humana está livre do pavonismo. A cabotinagem é antes de tudo um estado de espírito, uma maneira de cavar seu espaço no mundo – como Machado de Assis tão bem demonstra na Teoria do medalhão. Mas é óbvio que quem se expõe mais, como os artistas em geral, tem mais chances de enamorar-se da própria imagem. Picasso, por exemplo, achava que era o maior pintor do século 20. E era. Chato é quando o sujeito gostaria de ser tratado como Picasso mais até do que pintar como ele. Geralmente estamos diante de alguém que está desperdiçando energia no lugar errado, tenha ou não qualquer talento. O preço da lucidez é a eterna vigilância. Tenho que lembrar de botar isso no livrinho.


Trecho da Crônica Memórias Roubadas:

Não sou do tipo que tem saudades do vinil, do telefone com discador ou do elevador com pantográficas. Mas ninguém me convence de que a tecnologia das câmeras digitais não está roubando as memórias do futuro. Todo o princípio – muito racional e lógico – dessas câmeras é baseado no erro zero. A foto ficou boa? Ótimo. Não ficou? Delete. Aqui no jornal já é assim. O fotógrafo sai para a rua, faz 30 ou 40 fotos, sei lá, e no caminho de volta já vem selecionando o que fica e o que vai para o espaço. Tudo muito racional, muito lógico. O problema é que o que hoje é secundário, descartável, daqui a 20 ou 30 anos, ou mesmo na semana que vem, pode ganhar todo um novo significado, talvez impossível de ser percebido com os olhos de hoje. A história às vezes insiste em se construir a partir de material altamente deletável.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Van Gogh

Blogue de Barbara Decouti, voltado para intervenções e/ou interpretações de obras do Van Gogh. São contribuições do mundo todo, e a maioria é bem tosca, mas tem alguns legais.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Uma Leve Simetria

No terceiro livro de Rafael Bán Jacobsen, Uma Leve Simetria (Não Editora, 2009) vemos alguns elementos do seu romance anterior (Solenar), como a delicadeza com quem trata temas tabus, o cuidado com a palavra, a presença de um personagem jovem e bastante amadurecido, o questionamento existencial. Ainda assim, essas semelhanças, que poderiam parecer um esgotamento de recursos, somente evidenciam a consolidação de um estilo característico do escritor.

Uma Leve Simetria mostra, pelos olhos de um narrador em primeira pessoa, os conflitos de um amor proibido. E contar mais talvez seja contar demais.



Trecho do livro:
“A negativa veio com firmeza: não.
Quero te pedir uma coisa, Daniel: não comentes sobre isso com ninguém.
Permaneci calado. Nesse pedido, o golpe final: sim, o que eu sentia era proibido; sim, as palavras, os carinhos, a ânsia, tudo tinha de ser amortalhado no silêncio. Sem resposta, o rabino insistiu: prometes para mim?
No lugar da promessa, uma indagação: por que não posso gostar dele?
Não me perguntes isso, Daniel, por favor.
Tudo poderia ter acabado nesse instante: a conversa, com um assentimento; minha história com Pedro, com uma automutilação; meus devaneios e desespero, com o tempo – da eternidade. Mas o que o rabino Levi disse, a seguir, aniquilou o pouco de mim que ainda lutava: se olharmos friamente para a Lei, nada impede o gostar; contudo, a realização é vedada. Entendes, Daniel?
Sim, eu entendia. O mandamento era ainda mais cruel do que parecia a princípio, um cântico terrível que, em vez de trazer paz e alento, inflamava conflitos. Eu poderia viver para sempre querendo pedro, buscando, no ventre solitário das madrugadas, sua imagem para me acalentar; nunca, porém, a vontade divina se alegraria caso fosse concedida a mim a graça de traduzir o delírio em toques ou palavras sopradas ao ouvido dele, prenunciando o mais sublime enlevo. Nessa hora, então, o sangue derramado sobre nossas cabeças.”



O que já disseram:
Moacyr Scliar
, imortal:
Uma leve simetria revela-se uma grata surpresa. Com grande sensibilidade e não menor talento literário, Rafael Bán Jacobsen narra-nos uma história que, tendo como moldura a vida comunitária judaica com seus costumes e suas tradições, representa, contudo, um verdadeiro mergulho na condição humana – uma obra que, desde já, consagra o seu autor como um importante nome na nova geração de escritores brasileiros.”

Léa Masina:
“Não se trata de mais uma história judaica, do tipo que se enquadra num regionalismo étnico e urbano. Muito embora os usos e costumes formem o substrato concreto dessa narrativa – e são muitas as expressões que remetem a essas particularidades culturais e a contextualizam –, o que interessa ao leitor é o desenvolvimento dos conflitos e das relações humanas; em especial, o desenrolar da história de amor entre dois adolescentes, que alcança momentos sublimes, sem jamais resvalar nesse terreno perigoso, onde a caricatura e o maniqueísmo são ameaças constantes.”

Carlos André Moreira, jornalista:
Uma Leve Simetria trata de um tema antigo como o mundo: o embate entre aspirações de uma fé religiosa pura e o desejo proibido da carne. O que Jacobsen faz em sua narrativa é inverter o foco, ao apresentar esse tema aplicado a uma atração proibida entre dois rapazes. Um tema que o livro também proclama antigo como o mundo.”

Solenar


Um livro fácil de ler, mas difícil de escrever. É a impressão que fica ao nos depararmos com a estrutura de Solenar (Movimento, 2005), segundo livro do jovem escritor Rafael Bán Jacobsen. A narrativa de 219 páginas começa em 1954, com o relato de Henrique Kolling, jornalista que viaja à cidade interiorana de Passo dos Tropeiros para investigar uma tragédia ocorrida trinta anos antes com a tradicional família Solenar. As páginas de sua investigação na cidade são intercaladas com cartas e trechos de diários dos personagens envolvidos na misteriosa tragédia familiar. E é nesse ponto que começa o jogo do escritor com o leitor.

Aquilo que em princípio parece apenas um quebra-cabeças que se monta com paciência, com cada peça contribuindo para a construção da imagem final, se mostra um engodo: as peças se encaixam perfeitamente, mas a paisagem que aparece está encoberta por uma fina névoa que aos poucos se dissipa, para mostrar uma outra imagem novamente. Isso porque percebemos que nem todos os relatos são confiáveis. Diante das informações desencontradas, ou mesmo inverossímeis, como saber o que é relato verídico e o que é delírio, como saber onde está a verdade, se é que ela existe? Byron teria escrito, em seu diário: “Só Deus sabe as contradições que este diário pode conter. Se sou sincero comigo mesmo (infelizmente mente-se mais para si do que para os outros), cada página deve invalidar, refutar e inteiramente repudiar a que a antecede”.

Diferente de outros da nova geração de autores gaúchos, Jacobsen prima pelo esmero da construção da frase, valorizando cada escolha lexical. Outra coisa que chama a atenção no livro é a caracterização que o autor faz de cada personagem, não apenas nos aspectos físico e psicológico, mas pelos diferentes escritos. Há um menino de 13 anos, seu irmão mais velho, uma velha senhora e outros, e cada um tem seu estilo próprio de escrever (com algum destaque para o diário de Ismael). O fato estranho é que todos escrevem bem.

Trechos de Solenar:
Do Diário de Ismael Liedke Solenar, dia 19 de novembro de 1924:
“(...) Despertei afogado na escuridão, com a garganta queimando; ela estava em meu quarto, eu podia sentir, ou talvez fosse apenas um rato, visitante sem convite nesta madrugada de ruídos rastejantes. Quieto, até as pontas geladas dos dedos, estava novamente confinado ao sepulcro de meus ossos, desejando que a angústia acabasse. Pensei no internato, na voz do professor longe dos meus ouvidos – a água oxigenado misturada ao sangue do rato... –, no animal morto sobre minha classe, em coisas tolas que agora tomavam novo significado. Os demais garotos pareciam atentos, perplexos ante a química da vida, enquanto eu me indagava sobre a morte, a inércia fatal induzida pelo clorofórmio, a boca entreaberta no último hausto, todos detalhes físicos de que se veste o não existir. Viver, morrer, a verdade que sustenta o paradoxo é uma só, um ciclo perpétuo e inviolável de destinos trançados. A única diferença entre o internato e a estância é que, aqui, os ratos ainda vivem.




Outro trecho:

Do Diário de Ismael Liedke Solenar, primeiro de dezembro de 1924:
“(...) Lá dentro, surpreendentemente, um calor úmido me envolveu, queria ficar ali, para sempre, e ela, acomodando-se em um canto, trouxe-me ao seu colo. O abraço quente me envolvia enquanto arrepios trêmulos percutiam-me os músculos; o coração que escutava bater junto ao meu ouvido parecia ser o mesmo que me dava vida. Então, banhados pela luz do estranho luar, revelou-me seus seios claros, ansiosos, num pulsante convite prontamente correspondido pela fome de minha boca. Pus-me a sugar com avidez, feito uma criança, como se assim pudesse não só matara a sede de tantos dias perdido no deserto mas também toda fome que viera ao mundo; e, num crescente desespero, prisioneiro do delírio, enterrei meus dentes na pele, rasguei-a,sentindo um líquido espesso inundar minha garganta. E quanto mais lhe devorava o peito, mais forte se fazia seu abraço; quanto mais o sabor confuso de sua carne me convulsionava a língua, mais o meu desejo se aguçava – até asfixiar-me, uma cascata de sangue a inundar os pulmões. Meu tórax se comprimia, as artérias do pescoço se dilatavam, grossas feito cordas, e ela suspirou: a carne que comes e o sangue que bebes são os mesmos teus.
Acordei sentindo a umidade abundante dos lençóis, atirei-os longe.”



O que já disseram:
Lea Masina:
“Todos os ingredientes que se esperam de um bom romance aí estão: amores conflituosos, relações incestuosas, perseguições e ódios implacáveis, medo, crueldade, ambição, preconceito, sofrimento e morte. Tudo isso gestado pelas personagens que, ao registrar seus sentimentos, constroem-se umas às outras, completando os fragmentos dos relatos como quem tece um bordado de fina trama.”

sábado, 12 de setembro de 2009

Filme Inacabado

Há muito tempo, eu devia ter uns 9 anos, fui ver um filme com minha mãe e meu irmão. Era no antigo Cinema Cacique, que depois foi desativado para virar o Bingo Cacique, que incendiou e hoje é um estacionamento. Lembro pouco da história do filme. Sei que era algo diferente do que estava habituado a ver. A história era meio fantástica, mas não infantil, meio assustadora, mas não era terror, um pouco drama, mas tinha aventura. Mas o que me lembro mais nitidamente daquela sessão é que, depois de quase uma hora de projeção, faltou luz.

Parecia uma falha técnica temporária, coisa não rara até. Só que ficamos na escuridão por muito tempo, não sei dizer quanto, e a luz nunca voltou. Saímos do cinema com um ingresso para assistir outra sessão, num outro dia.

Só sei que, enquanto não ia à nova sessão, fiquei atormentado por aquela interrupção repentina. Como assim parar um filme no meio?! Da minha cabeça não saía a última imagem antes do blecaute: uma moça estava na cama à noite, no seu quarto, com a janela aberta, o vento balançava as cortinas brancas e algo estava prestes a acontecer.

Na semana seguinte, minha mãe e meu irmão me convidaram para ver o filme de novo, de graça. Não sei por que, recusei e inventei alguma indisposição. Hoje penso que pode ter sido proposital, apenas com o intuito de preservar aquele momento, aquele clímax inacabado, aquele mistério sem solução, aquela suspensão do tempo.

O filme se chamava Na Companhia dos Lobos, e nunca mais o vi. Nunca me deparei com ele na TV nem em locadoras.
Por favor, não me contem o final.