domingo, 10 de abril de 2011

Partículas Elementares

O francês Michel Houllebecq já afirmou que não é um provocador. Segundo ele, um verdadeiro provocador é alguém que diz o que não pensa, apenas para chocar. "Eu tento dizer o que penso. E quando eu sinto que o que eu penso vai causar desagrado, eu corro para dizê-lo com verdadeiro entusiasmo. E no fundo, eu quero ser amado, apesar disso." De qualquer maneira, Michel Houllebecq é, sim, um provocador. MH deve ser o tipo de aluno que apanhava dos mais fortes na escola, aquele de quem roubavam o lanche, que as meninas não davam bola e que até os professores debochavam. Como ele era ligeiramente mais inteligente que os outros, cresceu achando que seu triste passado infantil fosse fase obrigatória da inevitável sina dos gênios incompreendidos e livre-pensadores. Mas estava enganado, ele apanhava apenas porque era um grande mala mesmo. 


Prova disso é seu livro Partículas Elementares (Sulina, 1999), que conquistou malas ao redor do mundo, como Juremir Machado da Silva, seu tradutor no Brasil. (tradução esquisita, por sinal, recheada de coisas estranhas, e gigantescamente cheia de erros de revisão). Houllebecq escreveu um livro pretensioso. Quis fazer a crítica a uma geração, mas tarde demais, pois a tal geração já havia passado; se acha crítico e sagaz, mas é apenas bobo; quis emocionar e levar o leitor às lágrimas no final do livro (e ele mesmo afirmou isso em entrevista, onde ainda acrescentou: "É a qualidade que mais admiro na literatura: a capacidade de fazer chorar. Há dois elogios que aprecio: "Eu li em uma noite." e "Me fez chorar"), mas apenas escreveu uma dramalhão mexicano forçado à moda SBT. 


Houllebecq é um cara fodão. Ele gosta de posar para fotos sempre fumando um cigarro, para deixar claro que sua inexorável rebeldia não se dobra aos nossos tempos politicamente corretos. Mas desconfio que ele não traga.


Enfim, o livro não de todo tão ruim, só que é difícil levá-lo a sério, como o autor gostaria. Até tem alguns trechos divertidos, como esses abaixo:


(...) Começava a encher o saco dessa estúpida mania pró-Brasil. Por que o Brasil? Conforme tudo o que sabia, o Brasil era um país de merda, povoado de brutos fanáticos por futebol e por corridas de automóvel. A violência, a corrupção e a miséria estavam no apogeu. Se havia um país detestável, era justamente, e especificamente, o Brasil.

“Sophie”, exclamou Bruno com força. “Eu poderia ir ao Brasil, em férias. Passearia nas favelas, num microônibus blindado; observaria os pequenos assassinos de oito anos; não sentiria medo, protegido pela blindagem; à tarde, iria à praia, entre riquíssimos traficantes de droga e de proxenetas; no meio dessa vida desenfreada, dessa urgência, esqueceria a melancolia do homem ocidental; tens razão. Sophie: ao voltar, pegarei informações numa agência Nouvelles Frontières”.

“Não sirvo para nada”, disse Bruno, com resignação. “Sou incapaz de criar porcos. Não tenho a menor noção de como se produzem salsichas, garfos ou telefones celulares. Sou incapaz de produzir qualquer um dos objetos que me cercam, que utilizo ou devoro. Não sou nem mesmo capaz de compreender os seus processos de produção. Se a indústria parasse, se os engenheiros e técnicos especializados desaparecessem, eu seria incapaz do menor recomeço. Fora do complexo econômico-industrial, não conseguiria nem sequer sobreviver; não saberia como me alimentar, vestir, proteger-me das intempéries; as minhas competências técnicas pessoais são amplamente inferiores às do homem de Neandertal. Totalmente dependente da sociedade que me cerca, sou quase inútil. Tudo que sei fazer é produzir comentários duvidosos sobre objetos culturais ultrapassados. Recebo, porém, um salário, amplamente superior à média. A maioria das pessoas em torno de mim está na mesma situação. No fundo, meu irmão é a única pessoa útil que eu conheço.
  - Que fez ele de tão extraordinário?
Bruno refletiu. Virou, no prato, o pedaço de queijo, em busca de uma resposta de impacto.
  - Criou novas vacas.


Eu peguei o livro na biblioteca da faculdade, e ele estava cheio de anotações a lápis nas margens, o que tornou a leitura mais divertida. Abaixo coloco alguns trechos com as respectivas anotações desse leitor anônimo, que desconfio que não seja um homem. Esclareço que os comentários anotados não refletem a minha opinião.


Passados 30 anos, mais uma vez só podia chegar à mesma conclusão: decididamente as mulheres eram melhores do que os homens: mais carinhosas, mais amantes, mais compreensivas e mais doces; menos inclinadas à violência, ao egoísmo, à auto-afirmação, à crueldade. Além disso, mais razoáveis, mais inteligentes e mais trabalhadoras.


Anotação: 
(só rindo! Coitado..)
ATÉ PARECE!
Se são da mesma espécie, não podem ser diferentes!


(...) Um mundo composto por mulheres seria, sob todos os pontos de vista, infinitamente superior; evoluiria mais lentamente, mas com regularidade, sem retrocessos e reviravoltas nefastas, rumo a um estado de felicidade comum.

Anotação:
se destruiria mais rápido, com certeza. As mulheres são ditatoriais por natureza. E cínicas.


(...) O pré-adolescente é um monstro duplicado em imbecil, de um conformismo quase inacreditável; parece a cristalização súbita, maléfica (e imprevisível, considerando-se a criança) do que há de pior no homem.


Anotação:
 há! Há! Há! Sábias palavras


(...) Quando soube que esperava um menino, sofri um choque terrível. Não podia ser pior. Eu deveria estar feliz, mas, aos 28 anos, já me sentia morto.”

Anotação:
 (eu também)


(...) Ao descer do trem, depois ao atravessar a cidade, fiquei, mais do que tudo, surpreso com a pequenez e feiura desta – sem absolutamente nada que interessasse.”

Anotação
(Viamão)


Ela tinha vivido, cheirado coca, participado de surubas, dormido em hotéis de luxo.

Anotação
e ainda era entediada!







segunda-feira, 28 de março de 2011

Elogio da Loucura

No livro Elogio da Loucura (L&PM, 2003, tradução de Paulo Neves), de Erasmo de Roterdam, escrito no século 16, o autor faz críticas sarcásticas a diversos tipos de pessoas e instituições. O mais interessante é que, mesmo séculos depois, muitas delas permanecem bastante atuais.

Eis um trecho interessante:



Pode-se colocar na mesma classe aquelas pessoas que não gostam de outra coisa senão da caça. É um prazer imenso, segundo eles, ouvir o som rude e desagradável das trompas e os latidos medonhos dos cães. Acho até que eles cheiram o excremento dos seus cães com tanta volúpia como se fosse almíscar. Que prazer quando chega o momento de dilacerar um animal selvagem!  Cortar, arrancar os membros dos bois e dos carneiros é uma ocupação vil e desprezível que se delega à gentalha; mas dilacerar os membros palpitantes de um animal selvagem é um exercício nobre e glorioso reservado apenas aos heróis. É de joelhos, com a cabeça descoberta e uma faca consagrada a essa finalidade (pois seria uma crime empregar uma outra), é com certos gestos, com um certo respeito religioso que se realiza essa imponente cerimônia, enquanto os assistentes, dispostos em silêncio ao redor do sacrificante, admiram, como algo maravilhoso e inédito, esse espetáculo que talvez já tenham visto milhares de vezes. Feliz o mortal que é convidado a degustar uma pequena porção do animal! É uma honra que ele considera como um dos títulos mais gloriosos de sua família... Tudo o que ganham esses caçadores determinados é que eles se tornam, no final, quase tão selvagens quanto os animais que perseguem e comem. 

terça-feira, 22 de março de 2011

Pôsteres Poloneses - Parte 1

Se teve um lugar do mundo em que o comunismo fez bem pro povo esse lugar foi a Polônia.

Embora filmes americanos e europeus pudessem passar no país, os cartazes muitas vezes sofriam algum tipo de censura. E aí foi a chance de artistas plásticos poloneses brilharem, como Walkuski, Pagowski, Wasilewski e o premiadíssimo Wiktor Gorka, colocando toda sua loucura (no bom sentido) e genialidade para trabalhar em peças extremamente originais e inusitadas. E acabou que isso virou uma tradição hono país, mesmo depois da queda da ditadura, para o bem de todos.

Abaixo, veja a versão de alguns cartazes de filmes estrangeiros na Polônia.


As Bruxas de Eastwick


Amarcord


Fuga de Nova York


Cabaret


Crocodilo Dundee


Dumbo


Bonequinha de Luxo


Atração Fatal


Amadeus


Hair

segunda-feira, 7 de março de 2011

3 em 1 - Dancing with myself

Dancing with myself foi um clássico dos anos 80 na voz de Billy Idol, cantor que tentou reaparecer no cenário musical no fim dos anos 90, sem sucesso. Aqui três versões da música. A original, que hoje é totalmente trash; a do Nouvelle Vague, excelente banda francesa de vocais femininos que recria com extrema competência vários clássicos da música pop e punk com roupagem bem inusitada; e a dos Muppets.

Billy Idol


Nouvelle Vague


Muppets

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Entrevistas de Playboy - Tom Jobim

Seguem trechos da entrevista que o Tom Jobim deu para a Playboy em 1988. O bom da Playboy é que seus entrevistadores entravam em detalhes que outros repórteres não costumam perguntar, dando espaço para declarações mais inusitadas, como é o caso do músico brasileiro.



Tom Jobim (1988)

Você já fez música para cantar alguém, no sentido de conquistar?

Olha, cada canção que eu fiz é uma moça que eu não comi. Uma vez eu disse isso pro Millôr Fernandes e ele rebateu com a seguinte frase: “Pois cada canção que eu não fiz é uma moça que eu comi.”[risos].

A bossa nova consagrou Ipanema como o paraíso do prazer. Quando você tinha 20 anos, em 1947, já era assim?
Bem, naquele tempo as moças eram virgens, né? Evidentemente, como todo mundo, as minhas primeiras transas foram com as empregadas. Mas havia muitos soldados americanos no Rio, logo depois da Segunda Guerra, e as moças tinham uma enorme admiração por eles, por causa do cinema, claro. Aos poucos, com os americanos, elas foram ficando mais dadas... [risos]

Em comparação com a Luma de Oliveira, que tal a mulher americana?
A mulher americana não tem bunda. – aliás, e mulher branca em geral. A não ser que faça ginástica ou seja bailarina, mas aí fica com bunda por causa dos músculos. Outro dia vi uma branca aí com uma bunda respeitável, mas não é comum. Bunda é negócio de preto mesmo – a própria palavra, por sinal, é de origem africana. Mulher branca tem mesmo é peito, mas a bunda é assim: achata atrás e abre para os lados.

Pelo visto, você não é daqueles que preferem as louras.
Como todo sujeito que tem sangue de branco, me inclino mais para as morenas. Mas eu sou chegado mesmo é numa negra.

No entanto, seus filhos puxaram mais para o seu tipo claro.
É que na hora H eu penso na Suécia [risos].

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Rubem Fonseca - O romance morreu

Estou sempre adiando a estatística de qual autor mais li na vida. Talvez porque não me decido se devo considerar o número de livros ou o número de páginas... Mas certamente Rubem Fonseca está entre os mais lidos - seja em número de livros ou de páginas. E quem o lê sabe que, apesar de ele ter um estilo próprio - bastante imitado, por sinal - também apresenta textos bastante diversos entre si ao longo dos anos, despertando certa curiosidade pela sua persona. Como é um dos famosos "escritores reclusos", a curiosidade aumenta mais ainda. E eis que surge um livro que vem para desvendar um pouco a aura de mistério que envolve sua vida pessoal. Será?


Não, não se trata de uma biografia. Em O romance morreu [Companhia das Letras, 2007] temos um Fonseca cronista, falando o que pensa sobre uma variedade de assuntos triviais. E o mais intrigante é que o escritor é bem menos interessante - e aparentemente menos inteligente - que os seus personagens. Muitos dos textos do livro poderiam ser encontrados em um blog despretensioso de alguém não inclinado ao mundo profissional das letras. São textos que decepcionam pela banalidade. Para quem se acostumou com suas narrativas cruas, cheias de violência e ironia, o autor está irreconhecível. Coloco aqui apenas um exemplo, para o leitor ter uma ideia do que vai encontrar em O romance morreu.



Cinema e pipoca: não existe união mais perfeita. Vá comer pipoca no cinema, é um procedimento universal. Mas não faça barulho, cuidado com os sacos de papel, eles podem emitir um ruído desagradável se forem mal manipulados. Cinema é pra ser visto em silêncio.

Atualmente, a melhor pipoca dos cinemas do Rio me parece ser a do cinema Leblon, hoje dividido em duas salas. Já fiz o teste várias vezes, e a qualidade tem se mantido inalterada há bastante tempo.

Tenho medo de que um dia o Leblon, que tem projeção e som de aceitável qualidade, abandone a pipoca e em seu lugar passe a oferecer café expresso aos frequentadores, para ser consumido na sala de espera – tente assistir a um filme bebendo cafezinho –, e que outros cinemas também sigam esse mau exemplo de exclusão. Café expresso é uma delícia que pode ser provada em inúmeros lugares da cidade, até em açougues, como o ótimo cafezinho da delicatessen do talho capixaba. Mas pipoca boa, fora de casa, já que as das carrocinhas decaíram muito, só existe nos cinemas, o lugar ideal para ser desfrutada. É preciso preservar essa tradição.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Uma vida iluminada

Uma das melhores cenas do filme Uma vida Iluminada - adaptação do livro Everything is Illuminated, do americano Jonathan Safran Foer - é a do restaurante, quando o protagonista, um vegetariano, passa por certas dificuldades para pedir sua comida.

Uma curiosidade: o rapaz de chapéu é Eugene Hütz, vocalista do Gogol Bordello, quase irreconhecível no filme.



Aqui a cena completa, com seu desfecho, com legendas em inglês (todo vegetariano já passou por algo parecido):

http://www.youtube.com/watch?v=um2p4GlEbKg