segunda-feira, 25 de março de 2013

Precisamos falar sobre Kevin

Em Precisamos falar sobre Kevin (Intrínseca, 2007, tradução de Beth Vieira e Vera Ribeiro) temos mais um exemplo de livro que, quando transformado em filme, perdeu 99% do que tinha de interessante. Sim, pois, mesmo que a narração da personagem Eva criada pela escritora americana Lionel Shriver seja discutível, o livro se sustenta muito mais pelos pensamentos e insights de Eva do que pela ação (mesmo que esta seja importante também). No filme, como os diálogos são escassos, o título perde totalmente o sentido. Abaixo coloco um trecho.
Ótima capa de warrakloureiro


Na verdade, li faz pouco que já existe uma cirurgia capaz de praticamente curar os pacientes que sofrem de Parkinson. Foi tamanho o sucesso que mais de uma pessoa operada acabou se matando. Sim, você leu certo: se matando. Adeus aos tremores, adeus às oscilações espasmódicas do braço que derrubam o vinho no restaurante. Mas também adeus aos doces olhares de simpática comiseração vindos de pessoas estranhas, adeus às explosões espontâneas de ternura por parte de cônjuges psicoticamente magnânimos. Os recuperados ficam deprimidos, se fecham em casa. Não conseguem lidar com isso: ser igual a todo mundo.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

The Walking Dead


Isso foi tirado da edição em inglês de The Walking Dead, a graphic novel escrita por Robert Kirkman.

Quantas horas sobram num dia quando não passamos metade delas assistindo televisão?
Quando foi a última vez que qualquer um de nós se esforçou de verdade para conseguir algo que queria?
Quanto tempo faz que qualquer um de nós realmente precisou de algo que queria?
O mundo que conhecíamos já era.
O mundo de comércio e necessidades frívolas que conhecíamos foi substituído por um mundo de sobrevivência e responsabilidade.
Uma epidemia de proporções apocalípticas varreu o globo fazendo com que os mortos se levantarem e se alimentarem dos vivos.
Em questão de meses, a sociedade desmoronou, sem governo, sem mercados, sem correio, sem TV a cabo.
Em um mundo comandado pelos mortos, somos forçados a finalmente começar a viver.



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Pra mim, os melhores filmes de zumbi não são aqueles cheios de sangue e violência com personagens bobocas e piadinhas irônicas. Bons filmes de zumbi mostram o quanto somos perturbados, nos fazem questionar nosso lugar na sociedade, e o lugar da nossa sociedade no mundo. Eles nos mostram sangue e violência e todas essas coisas bacanas também, mas há sempre uma tendência para a crítica social e a reflexão.


Mil vezes Madrugada dos Mortos que O Retorno dos Mortos vivos. Pra mim filmes de zumbi são dramas instigantes, a par com qualquer filme digno de Oscar que aparece todo ano. São filmes que fazem você questionar o tecido da nossa própria sociedade são o que eu gosto. E em bons filmes de zumbi você tem isso aos montes.
(Robert Kirkman)

Robert Kirkman, criador de The Walking Dead

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Milan Kundera, capas


Cada um dos meus romances poderia ser intitulado A insustentável leveza do ser ou A Brincadeira ou Amores Risíveis, os títulos são intercambiáveis, eles refletem o pequeno número de temas que me obcecam, me definem e, infelizmente, me restringem. Fora esses temas, não tenho nada mais a dizer ou escrever.

















segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

King sobre Kubrick

Sou feio mas sou milionário
Em uma entrevista, o escritor best-seller Stephen King falou sobre o que achou da adaptação para o cinema que o consagrado cineasta Stanley Kubrick fez de seu livro O Iluminado, considerado por muitos um excelente filme.


O que você achou da adaptação de Stanley Kubrick do livro O Iluminado?








KING
Muito fria. Sem qualquer senso de investimento emocional na família da parte dele. Eu achei o tratamento de Shelley Duvall como Wendy... nossa, um grande insulto às mulheres. Ela é basicamente uma máquina de gritar. Não há nenhum senso de seu envolvimento na dinâmica da família. E Kubrick não parece ter qualquer ideia de que Jack Nicholson estava interpretando o mesmo papel de motoqueiro psicopata de todos os outros filmes que ele fez  - Hells Angels on Wheels, Rider O Wild Ride, The Rebel Rousers, Easy Rider. O cara é louco. Então, onde está a tragédia se o cara aparece para sua entrevista de emprego e ele já está maluco? Não, eu detestei o que Kubrick fez com o livro.

Kubrick ficou muito preocupado com a crítica

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Pergunte ao pó

Trecho do livro Pergunte ao pó, de John Fante (Editora José Olympio, 2003, tradução de Roberto Muggiati).


O protagonista, Arturo Bandini, é um aspirante a escritor que mora numa espelunca, sempre cheio de dívidas, mal conseguindo dinheiro pra comer. Aqui, se relaciona com um dos vizinhos.


Eu o xingava com palavrões violentos; logo perdi todo o respeito por ele. Sacudia sua cabeça vermelha e inchada, os grandes olhos com um ar deplorável. Mas nunca me ofereceu sequer os restos do seu prato. Dia após dia, eu trabalhava, contorcendo-me com o odor torturante de costeletas de porco fritas, bifes grelhados, bifes fritos, bifes à milanesa, fígado acebolado e todo tipo de carnes.

Um dia, sua mania de carne passou e a mania de gim voltou. Embriagou-se durante duas noites diretas. Podia ouvi-lo tropeçando pelo quarto, chutando garrafas e falando sozinho. Depois sumiu. Passou outra noite fora. Quando voltou, o cheque da sua pensão fora gasto e ele havia, de alguma forma, em algum lugar, não se lembrava, comprado um carro. Era um imenso Packard, com mais de vinte anos. Parecia um carro fúnebre, os pneus gastos, a pintura preta barata borbulhando ao sol quente. Alguém na rua Principal lhe vendera o carro. Agora estava quebrado, com um grande Packard nas mãos.

- Quer compra-lo? – disse.
- De jeito nenhum.

Estava deprimido, a cabeça estourando de uma ressaca.
Naquela noite, entrou no meu quarto. Sentou-se na cama, seus longos braços pendendo até o chão. Estava com saudades do meio-oeste. Falava de caça de coelho, de pescaria, dos bons velhos dias quando era garoto. Começou então com o assunto da carne.

- Que tal um bife grande e grosso? – disse, os lábios frouxos. Abriu dois dedos. – Grosso assim. Grelhado. Um monte de manteiga por cima. Queimado apenas o suficiente para dar um travo. Gostaria de um bife assim?

- Adoraria.
Levantou-se.
- Então venha comigo, vamos atrás de um bife.
- Você tem dinheiro?
- Não precisamos de nenhum dinheiro. Estou com fome.
Apanhei meu suéter e o segui pelo corredor até a viela. Entrou no carro. Hesitei.
- Aonde está indo, Hellfrick?
- Vamos lá – falou. – Deixe por minha conta.
Entrei ao lado dele.
- Sem problema – falei.
- Problema! – escarneceu. – Estou lhe dizendo que sei onde podemos encontrar um bife.

Rodamos ao luar de Wilshire para Highland e de Highland passando por Cahuenga Pass. Do outro lado, estava a planície achatada de San Fernando Valley. Encontramos uma estrada deserta saindo do calçamento e a seguimos através de eucaliptos altos até fazendas esparsas e pastos. Depois de um quilômetro e meio, a estrada terminava. Arame farpado e postes de cerca apareciam no brilho dos faróis. Hellfrick laboriosamente deu meia-volta no carro, colocando-o de frente para a estrada pavimentada que havíamos deixado. Saiu pela porta da frente, abriu a porta traseira e remexeu nas ferramentas debaixo da almofada do banco traseiro.
Debrucei-me e o observei.
- Que está fazendo, Hellfrick?
Levantou-se, um macaco na mão.
- Espere aqui.
   Passou por baixo de uma falha no arame farpado e atravessou o pasto. A uns cem metros, um celeiro destacava-se no luar. Então descobri o que ia fazer. Saltei do carro e gritei para ele. Mandou-me silenciar, raivoso. Eu o vi seguir na ponta dos pés em direção da porta do celeiro. Eu o xinguei e esperei tenso. Logo ouvi o mugido de uma vaca. Era um grito que dava pena. Ouvi então um baque e um arrastar de cascos. Pela porta do celeiro, veio Hellfrick. Sobre o ombro, carregava uma massa escura, que o fazia vergar. Atrás dele, mugindo sem parar, vinha uma vaca. Hellfrick tentou correr, mas a massa escura o limitava a uma marcha rápida. E a vaca ainda o perseguia, enfiando o focinho nas suas costas. Virou-se, chutando violentamente. A vaca parou, olhou em direção do celeiro, e mugiu de novo.
- Seu imbecil, Hellfrick. Seu desgraçado imbecil!
- Me ajude – falou.
   Ergui o arame farpado a uma altura que lhe permitiria passar com seu fardo. Era um bezerro, o sangue jorrando de um talho entre as orelhas. Os olhos do bezerro estavam arregalados. Eu podia ver a lua refletida neles. Era assassinato a sangue frio. Fiquei enojado e horrorizado. Meu estômago revirou quando Hellfrick jogou o bezerro no banco traseiro. Ouvi o corpo desabar, depois a cabeça. Fiquei enojado, muito enojado. Era puro assassinato.
   Em toda a viagem de volta, Hellfrick exultava, mas o volante estava pegajoso de sangue e uma ou duas vezes ouvi o bezerro escoiceando no assento traseiro. Segurei o rosto nas mãos e tentei esquecer o chamado melancólico da mãe do bezerro, o doce rosto do bezerro morto. Hellfrick dirigia muito rápido. Em Beverly, passamos disparados por um carro preto que rodava lentamente. Era uma patrulha policial. Cerrei os dentes e esperei pelo pior. Mas a polícia não nos seguiu. Estava enjoado demais para me sentir aliviado. Uma coisa era certa: Hellfrick era um assassino, e estava tudo encerrado entre nós. Em Bunker Hill, descemos por nossa viela e encostamos no espaço de estacionamento adjacente à parede do hotel. Hellfrick saiu.
- Agora vou lhe dar uma lição de açougueiro.
- Vá para o inferno – falei.
   Fiquei vigiando enquanto ele embrulhava a cabeça do bezerro em jornais, o jogava sobre o ombro e apressava-se pelo corredor escuro em direção do seu quarto. Espalhei jornais pelo chão sujo e ele largou o bezerro sobre eles. Riu de suas calças ensangüentadas, de sua camisa ensangüentada, de seus braços ensangüentados.
   Olhei para o pobre bezerro. Sua pele era malhada em preto e branco e tinha os tornozelos mais delicados. De boca ligeiramente aberta, aparecia uma língua rosada. Fechei os olhos e saí correndo do quarto de Hellfrick e joguei-me no chão do meu quarto. Fiquei ali e estremeci, pensando na velha vaca sozinha no campo ao luar, a velha vaca mugindo pelo seu bezerro. Assassinato! Hellfrick e eu estávamos acabados. Ele não precisava pagar a dívida. Era dinheiro manchado de sangue – não para mim.
   Depois daquela noite, fiquei muito frio com Hellfrick. Nunca mais visitei seu quarto. Algumas vezes reconheci a sua batida, mas mantive a porta trancada para que não pudesse entrar. Quando o encontrava no corredor, simplesmente grunhíamos. Devia-me três dólares, mas nunca cobrei.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Clarice Lispector - Correio Feminino

A essa altura todo mundo já sabe que as frases assinadas por Clarice Lispector, tão cheias de lições de vida e por isso mesmo tão rasas e bregas, que pipocam nas redes sociais, jamais teriam saído da boca da escritora de sintaxe inovadora e pensamentos profundos. Para diferenciar a verdadeira Clarice da falsa Lispector, você pode até adotar uma regra com segurança: se você entendeu o texto de primeira, pode estar certo de que não é dela. Será?

Para quem estava acostumado com a complexidade de sua obra, a publicação de Correio Feminino (Editora Rocco, 2006) é uma novidade. O livro é uma coletânea de artigos que a autora escreveu sob pseudônimo em jornais durante os anos 50 e 60. Dirigidos ao público feminino, os textos fariam uma feminista do século 21 ter convulsões. Refletindo o conservadorismo da época, colocam as mulheres em papel subserviente e inferior. Outros tratam apenas de detalhes como qual a melhor maquiagem ou dicas de etiqueta.Outras vezes, a escritora descamba para a mais barata autoajuda. Correio Feminino é sem dúvida uma surpresa para o leitor de Clarice.

Abaixo, coloco alguns trechos do livro Correio Feminino, de Clarice Lispector:.




Lista das 10 coisas que os homens detestam:
1- Vestido muito justo
2- Pintura excessiva, principalmente nos olhos
3- Modas sofisticadas e complicadas
4- Saltos muito altos
5- Batom exagerado
6- Meias com costura torta
7- Excesso de joias
8- Decote exagerado
9- Moça desembaraçada demais
10- Mulher sabichona



"Se o seu marido está acostumado a vê-la despenteada, em chinelas, de roupa desleixada, sem pintura, aos poucos ele irá esquecendo a figurinha bonita que o atraiu antes, quando você só lhe aparecia enfeitada e perfumada. Começará a perguntar a si mesmo, o que existe em você, afinal, de interessante... e a resposta é perigosa, minha cara!
  (...) A faceirice, é, portanto, obrigação para a mulher. Nem a mulher de negócios, nem a cientista, nem a mulher de letras, nem a esportista dispensam esse dever primordial para a conquista do homem. Afinal, podemos pensar deles o que quisermos, mas precisamos deles para completar a nossa felicidade, não é mesmo?"

Discrição
"Você naturalmente sabe que chamar a atenção não é de bom-tom e dá sempre uma impressão muito má da mulher. Seja pela roupa escandalosa, pelo penteado exótico, pelo andar, pelos modos, pela risada grosseira, seja, enfim, de que maneira for, a mulher que chama a atenção sobre a sua pessoa o único troféu que merece é o da vulgaridade."

 Manias que enfeiam
 Existem muitas, e muitas também são as mulheres que as cultivam, sem pensar que com isso estão se prejudicando. Por exemplo, a mania de estar sempre comendo alguma coisa, como um chocolate, um caramelo, um sorvete, como se vivesse eternamente com fome. Além de extremamente deselegante, dá a impressão de que não come o bastante em casa. Os homens detestam isso. Sem falar nas gordurinhas supérfluas que essa gulodice constante faz aparecer.


Discrição.
Você naturalmente sabe que chamar a atenção não é de bom tom e dá sempre uma impressão muito má da mulher. Seja pela roupa escandalosa, pelo penteado exótico, pelo andar, pelos modos, pela risada grosseira, seja, enfim, de que maneira for a mulher que chama a atenção sobre a sua pessoa ou único troféu que merece é o da vulgaridade.

Os homens, geralmente muito discretos, detestam as mulheres que se destacam demais, onde quer que apareçam.



Uma coisa é certa: nós, mulheres, desejamos e temos o dever de agradar aos homens.


                             
Gestos, palavras, atitudes

Muitas de vocês, leitoras, hão de conhecer esse tipo feminino, infelizmente hoje não tão raro como seria de des4ejar: a mulher de gestos exagerados, palavras livres e atitudes deselegantes. Interpretando mal a independência da mulher moderna, ela fuma como  um homem, em público, cruza as pernas com uma desenvoltura chocante, solta gargalhadas escandalosas, bebe com exagero, usa gíria de mau gosto, palavreado grosseiro, quando não se desmoraliza repetindo palavrões.


O melhor é não fumar, tanto para homens como para mulheres. Mas,se vocês fuma, fume bem, fume com jeito feminino.


Algumas pessoas têm o hábito prejudicial de deixar animais de estimação dormindo no mesmo aposento de seus donos. Se as crianças,depois de alguma idade, podem dormir em quartos separados, sem perigo, porque não podem os cachorrinhos mimados ou os gatos mais queridos? Compreendo e compartilho o amor aos animais, o cuidado e o carinho que eles merecem de nós, mas esse triste costume de ter animais no próprio quarto de dormir é errado, além de perigoso.

Lavar com frequência as roupas de uso interno, significa, além de bom gosto, conservá-las por mais tempo. Qualquer tecido se enfraquece, se, na lavagem, é necessário esfregá-lo muito para torná-lo limpo.


As brigas
Os casais que brigam eventualmente são infelizes? Há mulheres que começam a falar cedo, tentando implicar com o marido, e se esse consegue guardar um silêncio heroico, começam a acusá-lo de indiferente, cruel e marido que não presta atenção ao que diz a esposa. Essas mulheres, com tal atitude, estão apenas criando um abismo entre elas e o marido, vítima da incompreensão e do egoísmo da esposa.


Uma mulher que recebe o chefe do lar com um ar cansado, que desfiando a ele um rosário de lamúrias sobre seus problemas caseiros, brigas com as empregadas e as malcriações dos filhos, está entediando o marido e só conseguirá que ele se aborreça gradativamente do seu lado, Numa tal atmosfera, os aborrecimentos que o marido talvez traga da rua, suas preocupações, seus problemas, não encontram uma válvula de escape e aumentam, tornando-o mal humorado, nervoso e pouco apto para resolver as situações que o aguardam no dia seguinte.

Que deverá você fazer para ajudar seu marido a progredir na vida? Primeiramente, deve mostrar-lhe, por diversos meios, que tem confiança nele: ao mesmo tempo, deve tomar interesse por seu trabalho, ouvir suas longas dissertações sobre os acontecimentos do dia, e procurar manter sempre a casa limpa, apresentar refeições gostosas e agradáveis à vista.



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Entrevista Haruki Murakami


Abaixo, brevíssimos trechos de uma entrevista do escritor Haruki Murakami para a revista alemã Der Spiegel.

Eu não sou inteligente. Eu não sou arrogante. Eu sou como as pessoas que leem meus livros. Eu tinha um clube de jazz, e eu fazia os coquetéis e eu fazia os sanduíches. Eu não queria me tornar um escritor -  simplesmente aconteceu. É uma espécie de presente, você sabe, dos céus. Então eu acho que deveria ser muito humilde.



SPIEGEL: Você é um escritor melhor pelo fato de correr?
Murakami: ...: Definitivamente. Quanto mais fortse meus músculos ficam, mais clara fica mente. Estou convencido de que os artistas que levam uma vida pouco saudável se esgotam mais rapidamente Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin foram os heróis da minha juventude - todos eles morreram jovens, mesmo que não merecessem. Somente  gênios como Mozart ou Pushkin merecem uma morte precoce. Jimi Hendrix foi bom, mas não tão esperto, porque ele usava drogas. O trabalho artístico não é saudável;. Um artista deve levar uma vida saudável  pra compensar isso. Encontrar uma história é uma coisa perigosa para um escritor, correr me ajuda a evitar esse perigo.

Spiegel: O senhor poderia explicar isso?
Murakami:. Quando um escritor desenvolve uma história, ele é confrontado com um veneno que está dentro dele Se você não tem esse veneno, sua história vai ser chata e sem inspiração É como fugu:. A carne do baiacu é muito saborosa, mas as ovas, o fígado, o coração podem ser letalmente tóxicos. Minhas histórias estão localizados em uma parte escura e perigosa da minha consciência, eu sinto o veneno em minha mente, mas eu posso afastar uma alta dose porque eu tenho um corpo forte. Quando você é jovem, você é forte, então você pode facilmente dominar o veneno, mesmo sem treinamento, mas para além da idade de 40 a sua força diminui, você não pode mais lidar com o veneno se você não levar uma vida saudável.