Mostrando postagens com marcador Entrevistas de Playboy. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Entrevistas de Playboy. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Entrevista de Playboy - Gabriel García Márquez

Trechos de entrevista de Gabriel García Márquez em1983

Cem anos de Solidão será transformado em filme, como se afirma?
Jamais. Os produtores me ofereceram enormes quantias pelos direitos, mas eu recuso. A última oferta, acredito, foi de 2 milhões de dólares. Não quero vê-lo transformado em filme porque quero que os leitores continuem imaginando os personagens da forma como eles os vêem, imaginam. Isso não é possível no cinema. No cinema a imagem é tão definitiva que o espectador não pode mais imaginar o personagem como deseja, mas sim como a imagem impõe.

Uma cena memorável de Cem Anos é a do padre que levita quando bebe chocolate quente. Como é que você teve essa ideia?

Bem, havia um padre em Aracataca de quem se dizia que era tão santo que se elevava do chão quando levantava o cálice durante a missa. Quando escrevo sobre aquele episódio, ele não me pareceu acreditável. Ora, se eu não acreditar em algo, o leitor também não acreditará. De forma que decidi ver como ficaria com outros vasos e líquidos. Bem, ele começou a beber todo tipo de coisa, e nada funcionava. Finalmente fiz ele beber Coca-Cola, e me pareceu a bebida perfeita! Contudo, eu não queria fazer propaganda gratuita da Coca-Cola, de forma que dei ao padre chocolate quente, o que também pareceu acreditável. Se eu fosse adiante com a Coca-Cola, iríamos ver grandes outdoors na América Latina dizendo: SUBA AOS ARES COM COCA-COLA!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Entrevistas de Playboy - Tom Jobim

Seguem trechos da entrevista que o Tom Jobim deu para a Playboy em 1988. O bom da Playboy é que seus entrevistadores entravam em detalhes que outros repórteres não costumam perguntar, dando espaço para declarações mais inusitadas, como é o caso do músico brasileiro.



Tom Jobim (1988)

Você já fez música para cantar alguém, no sentido de conquistar?

Olha, cada canção que eu fiz é uma moça que eu não comi. Uma vez eu disse isso pro Millôr Fernandes e ele rebateu com a seguinte frase: “Pois cada canção que eu não fiz é uma moça que eu comi.”[risos].

A bossa nova consagrou Ipanema como o paraíso do prazer. Quando você tinha 20 anos, em 1947, já era assim?
Bem, naquele tempo as moças eram virgens, né? Evidentemente, como todo mundo, as minhas primeiras transas foram com as empregadas. Mas havia muitos soldados americanos no Rio, logo depois da Segunda Guerra, e as moças tinham uma enorme admiração por eles, por causa do cinema, claro. Aos poucos, com os americanos, elas foram ficando mais dadas... [risos]

Em comparação com a Luma de Oliveira, que tal a mulher americana?
A mulher americana não tem bunda. – aliás, e mulher branca em geral. A não ser que faça ginástica ou seja bailarina, mas aí fica com bunda por causa dos músculos. Outro dia vi uma branca aí com uma bunda respeitável, mas não é comum. Bunda é negócio de preto mesmo – a própria palavra, por sinal, é de origem africana. Mulher branca tem mesmo é peito, mas a bunda é assim: achata atrás e abre para os lados.

Pelo visto, você não é daqueles que preferem as louras.
Como todo sujeito que tem sangue de branco, me inclino mais para as morenas. Mas eu sou chegado mesmo é numa negra.

No entanto, seus filhos puxaram mais para o seu tipo claro.
É que na hora H eu penso na Suécia [risos].

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Entrevistas de Playboy - Pelé

Pelé é famoso por algumas frases, principalmente quando fala de política, como aquela em que diz que brasileiro não sabe votar. Na sua entrevista para a Playboy em 1993, foi claro ao falar de suas preferências políticas. No trecho abaixo, além disso,o ex-jogador também faz revelações sobre Xuxa:

Você a ajudou muito no começo da carreira, não?
Pois é. Nunca contei o que vou contar agora. Sei que fui importante na vida dela. Fui em quem, por exemplo, recolheu todas as fotos que ela tinha feito nua. Todas. Falei com os Civita, da Editora Abril, com os Bloch, da Manchete, com o fotógrafo Luís Trípoli, que fazia as fotos dela – tinha foto dela até em cima de táxi, em Nova York, de bunda de fora -, e todos foram muitos legais, compreenderam o meu esforço. Afinal, ela era uma menina sem maldade, muito natural, que encarava a nudez com a maior tranquilidade, tomava banho de sol nua para não ficar com as marcas de biquíni. A minha família não toleraria. O Roberto Civita me deu uma mala de fotos e de negativos. O Adolpho Bloch também e o Trípoli do mesmo jeito. Entreguei tudo para ela e disse: “Pronto, está tudo aqui. Ninguém vai usar mais. Quem trabalha com crianças precisa se cuidar”.

Sobre Paulo Maluf:
Acho que se ele tivesse sido o presidente o Brasil estaria melhor hoje em dia. Porque ele é um dos melhores administradores que temos, sem dúvida.

Sobre a ditadura:
Na época em que o Exército estava tomando conta a coisa não estava tão ruim assim.

Quem dizer que você acha que sem uma boa dose de autoritarismo não serão resolvidos os problemas brasileiros?
Eu acho que não.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Entrevistas de Playboy - Piquet X Senna

Mesmo quem não acompanhava nos anos 90 as corridas de Fórmula-1 sabia da rixa entre os pilotos brasileiros Ayrton Senna e Neslon Piquet. Piquet já era um veterano quando Senna entrou em cena (ops). Senna logo virou ídolo, deixando Piquet em segundo plano.

Com personalidades bem diferentes, ambos deram entrevistas à revista Playboy. Primeiro Piquet, em 1988 e Senna dois anos depois. Nelson Piquet nunca deu muita bola para a opinião dos outros, sendo, na opinião de alguns, excessivamente sincero, o que lhe rendeu vários desafetos, entre eles o próprio Ayrton Senna.

Depois que morreu em um acidente de trabalho em 1994, Senna se tornou ídolo nacional, virando nome de escolas, viadutos, ruas e avenidas em centenas de cidades do país. Mas poucos sabem o que se passava na cabeça dele. Na entrevista abaixo, é possível vislumbrar um pouco da sua mente, o que, na verdade, é assustador: ele tinha visões, delírios, admirava o presidente Collor e, enfim, cada país tem o ídolo que merece...



As entrevistas foram publicadas no livro As 30 melhores entrevistas de Playboy (Editora Abril, 2005, 313 páginas)


Nelson Piquet 1988

Para quem você corre, Piquet?
Para mim, oras. Corro porque gosto, porque me dá prazer. O dia em que eu me encher o saco, largo tudo e vou embora.

Sempre foi assim?
Claro. Para quem mais você acha que eu ia correr?

Não sei. Para a sua família, para os amigos que te deram força no começo da carreira...
Eu poderia muito bem dedicar as vitórias à minha mãe ou ao meu pai, que já morreu, mas seria pura demagogia [fala olhando para o filho mais velho, Geraldo, que assiste à entrevista]. Isso só serve para o cara ler no jornal e ficar babando. Na verdade, por que eu ganhei? Ganhei porque trabalhei como um filho da puta, porque sofri pra cacete... Eu ganhei pra mim, porra!


Ayrton Senna 1990

Esse seu, digamos, diálogo com Deus começou em 1988, em Mônaco, quando você liderava a prova com quase um minuto de vantagem sobre o Alain Prost e bateu o carro sozinho no guard-rail?
Exatamente. Aquilo não era apenas um erro de pilotagem. Era a consequência de uma luta interna que me paralisava e tornava vulnerável. Eu tinha uma abertura para Deus e outra para o diabo. O acidente foi um sinal de que Deus estava ali me esperando, para me dar a mão. Bastava eu dizer que queria. Foi uma experiência incrível. Ouvir falar de Deus é uma coisa. Mas eu experimentei, diante dos meus olhos, dos meus sentidos – o que é bem diferente. Não existe equívoco, não existe dúvida, não existe mal-entendido. É uma verdade.

Que outras experiências você teve?
Se conversar sobre minha vida amorosa é algo extraordinário, falar sobre Deus é ainda mais fora do comum. É muito, muito especial. É meu mundo. Aos olhos das pessoas comuns, que não têm fé, tudo é loucura, bobagem. Por isso, fica uma situação incômoda para mim. Ao mesmo tempo, por que não dividir experiências com as pessoas que, como aconteceu comigo, procuram a vida nova?
E como são os sinais que você recebe?
Vou contar uma experiência recente. No Grande Prêmio de Mônaco deste ano, em maio, percebi nos treinos de sábado que meu carro estava desequilibrado, sem possibilidade real de vitórias na corrida de domingo. A McLaren do Gerhard Berger, meu companheiro de equipe, apresentava os mesmos problemas. Bem, vencer em Montecarlo era muito importante e expliquei isso a Deus. Ele sabe de tudo o que se passa em nosso coração. Mas é necessário se entregar através do coração. Foi o que eu fiz. Quando chegou o domingo, ainda no warm-up, tive uma sensação e uma visão. Consegui me enxergar de fora do carro. Em volta da máquina do meu corpo, existia uma linha branca, uma espécie de onda, que se traduziu para mim como força e proteção.

Você conseguiu se ver?
Hã-hã.

Saiu do seu corpo?
Hã-hã. Entrei em outra dimensão. Tive uma paz incrível, e a certeza de que estava equilibrado, de corpo e alma, inteiro. Não tinha canto sobrando, estava tudo redondo, em harmonia. Geralmente, antes de largar, fico na minha, quietão. Dessa vez, até sorri. Saí do boxe, com aquele mesmo carro que um dia antes apresentou problemas, e os defeitos... pá! desapareceram! Estavam lá, mas não me incomodavam. Depois da corrida, o Berger veio conversar comigo, e disse que o carro dele continuou trepidando. Eu apenas sorri, não entrei em detalhe. Só que, comigo, não aconteceu nada.

Você lê a Bíblia diariamente?
Não. Mas, às vezes, mais do que uma vez por dia. É nela que aprendo pouco a pouco sobre o deus poderosos, que criou o céu, a Terra, o universo.

Como você se sente sendo patrocinado pela Marlboro?
A marca está ali no carro, mas não forço ninguém a fumar. A Philip Morris deu uma contribuição inestimável ao automobilismo. Foi ela que financiou a divulgação do esporte e deu a tanta gente a possibilidade de curtir uma corrida. Vejo por esse lado, e não pelo lado negativo que os outros enxergam, de que o cigarro é ruim, faz mal para a saúde.

Mas é ruim ou não?
É indiscutível que não traz muitos benefícios à saúde. Por outro lado, você vê gente que pára de fumar e engorda.

Já que estamos falando de patrocínio, quanto você tinha guardado no Banco Nacional quando o Plano Collor resolveu fechar as torneiras do país?
O suficiente para sentir a paulada. Mas foi uma medida necessária. O presidente Collor é um grande líder, e há muito tempo o Brasil precisava de alguém assim. Acho que ele é muito bom.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Entrevistas de Playboy - Tim Maia

Em 1998 morreu Sebastião Rodrigues Maia, mais conhecido como Tim Maia. O folclórico cantor e compositor brasileiro (jamais cantor folclórico!) era verborrágico e dava ótimas entrevistas. Uma das poucas registradas por escrito foi concedida à revista Playboy em 1991, mais tarde publicada no livro As 30 melhores entrevistas de Playboy (Editora Abril, 2005, 313 páginas). Abaixo, alguns trechos dessa entrevista onde fala sobre Picasso, Roberto Carlos e masturbação.


Tim Maia (1991)
Vamos esclarecer de uma vez por todas: por que você vive faltando aos shows? Isso até já é uma de suas marcas registradas.
Algumas vezes eu fiquei de rebordosa, realmente... A alguns shows eu não fui e a outros deixei de ir porque não estava a fim – para explodir a coisa. Por exemplo, eu já faltei no People porque não se tem condições de cantar lá. Não tem som, não tem estrutura, cheio de doidão e de garçom careca passando na sua frente. Tenho o maior grilo com garçom careca.
Eu sou fã dos espanhóis. Sou fã do Picasso, do André Segóvia, do Paco de Lucia – mais do que os espanhóis não existe em matéria de arte: grande pintores, bailarinos, violonistas. Pois é o mesmo povo que mata um boi do jeito que eles matam, enfiando troços no pescoço do bicho, fazendo sangrar até morrer e gritando olé. Por que não enfiam um negócio daqueles no próprio rabo e não saem gritando olé. É esse tipo de espanhol que está no Brasil: os matadores de touro, os Recareys da vida, e nós somos os touros para eles.

Sobre Ed Motta
Daí a pouco o cara ficou besta pra caramba, nem fala mais comigo. Se deixar, ele manda o Tim Maia pra casa do cacete e me apaga. Ele não quer ser o sobrinho do Tim Maia – nada dessa história de continuar amigos e parentes. Levou meu conjunto pra tocar com ele, inclusive um músico que estava comigo há dez anos. Só que este já está louco pra voltar porque acha que meu sobrinho não está com essa bola toda. Bem que eu avisei o menino: “Vai devagar, que isso é uma explosão”. Acho que a explosão dele já deu o que tinha que dar. Gravadora é maior ilusão. No começo é retratinho na parede, aquele cheirinho de limpeza e, depois, é puro escravagismo, tipo Sargentelli [o empresário da noite Oswaldo Sargentelli].

O que o Sargentelli tem a ver com isso?
Foi quem inventou esse negócio de que preto só serve pra mostrar a bunda. Então as pretas não sabem nem falar, nem comer nem se vestir, moram no morro e vão mostrar a bunda pros turistas. Eles acham bacaba, mas, também, eles não têm muita coisa pra fazer. Enquanto está vivo, ele deveria angariar fundos para fundar uma escola de pretos, já que ele botou tanta presta pra mostrar a bunda. Enfim, fazer alguma coisa pela raça.Principalmente pelas mulatas, que ele chama de mulatas, mas que são pretas mesmo. Não existe esse negócio de mulata – é light skin ou mestiço. Mulata é cor de mula. Filho de preto com branco é mestiço.

E pra transar, você é dos delicados ou dos violentos?
Eu sou artista, sou do amor. Se duvidar eu até deixo a moça me comer, de tão gentil que sou. O que eu sou é um pouco afoito por causa da fimose.

Você não acha que bebida demais também atrapalha o desempenho?
Não. Um bom uísque, bem controlado – pra também não broxar até ajuda. Com um bom 12 anos, na décima dose tanto faz ter ou não ter fimose. Fica até difícil de baixar.

Você broxa muito?
Nunca broxei na minha vida.

O que é melhor? Um grande porre ou uma grande mulher?
Uma mulher. O porre faz mal ao fígado. E também não é só sexo. Existe o amor, a companhia, tenho certeza disso. Do meu peru eu sei que elas não têm saudade. Mas do meu carinho, do papo, do violãozinho quando elas chegavam em casa, de ver a novela com elas, ah, isso elas têm.

Ser gordo atrapalha para transar?
O problema do gordo é só um: quando ele beija, não penetra; e, quando penetra, não beija.

Há pouco você declarou à Folha de São Paulo que seu hobby era masturbação. É mesmo?
É verdade. Até hoje eu toco minhas punhetinhas, graças a Deus. Às vezes, até com a mulher do lado. Masturbação é um troço da mente. Tomo um gorozinho legal, tomo um banho, aí vem a inspiração e eu descasco aquela bananinha.

Roberto Carlos é um geniozinho?
Não. Roberto Carlos é inteligente, batalhador e canta mais ou menos.

E Tim Maia?
Por enquanto é um sujeito que, em vez de estar dormindo com uma Miss Brasil maravilhosa até as 9 da manhã, acaba dormindo com uma prostituta que sai correndo às 6h43 e ainda leva quinzinho. Mas isso vai mudar.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Entrevistas de Playboy - Mohammed Ali

"Eu compro só pelas entrevistas."
Quem nunca ouviu essa justificativa de alguém constrangido de ler a revista Playboy? Eu mesmo já me vali dela muitas vezes, quando tinha meus 13 anos... Mas a verdade é que, sim, não há entrevistas como as da Playboy. Sem o rigor da pauta do momento, as entrevistas publicadas na Revista Playboy (tanto a americana quanto a nacional) são resultado de longos e informais bate-papos onde os mais variados tipos de entrevistados (dos mundos artístico, político, esportivo, empresarial, etc) dizem coisas que não costumam revelar em outras oportunidades.

Ao longo dos anos, a editora Abril lança uma coletânea de entrevistas publicadas na revista. Colocarei aqui trechos de algumas delas, reunidas no livro As 30 melhores entrevistas de Playboy (Editora Abril, 2005, 313 páginas). Uma das coisas mais interessantes dessas entrevistas é que muitos dos entrevistados, respeitados e admirados na sua área de atuação, revelam-se pessoas normais na sua fala, ou seja, mostram-se simples, banais e também ignorantes, preconceituosos e com visão estreita. O livro, assim, é um documento histórico, onde podemos ver que pessoas que já viraram nome de rua e de escola eram não muito mais que ególatras ensandecidos e bastante confusos (mas alguns se salvam).

O primeiro exemplo é o astro do boxe Mohammed Ali, em entrevista de 1975 à Playboy americana.

Abaixo, alguns trechos selecionados:

Antes de me tornar um muçulmano negro, tive uma namorada branca por dois dias. Não me senti bem, tinha que disfarçar, sair de mansinho. Homens negros com mulheres brancas podem até achar que estão apixonados, que está tudo ótimo, mas você os vê na rua e eles estão envergonhados. E vi como isso era imbecil. Hoje estou casado e apixonado por uma negra linda. Se não estivesse, estaria correndo atrás de outra negra linda.


Você acha que vai se tornar uma lenda nacional americana?

A lenda de Mohammed Ali já está escrita, eu mesmo a escrevi.


Falando nisso: é você mesmo quem escreve as poesias que você lê?

Claro. Ei, meu chapa, sou tão bom que já me chamaram para ser catedrático em Oxford. Sabe, sou um sujeito do mundo, que gosta de gente, de movimento, mas quando me vejo numa cidade, só penso em voltar para o interior. Barulho, néon, carros, isso enlouquece uma pessoa. O melhor lugar do mundo, para mim, é minha chácara no interior da Pensilvânia: lá posso treinar, escrever, viver em paz. E escrevo o tempo todo que estou por lá, mesmo em época de treinamento. Sabe, foi lá que escrevi o melhor poema do mundo.


Como você sabe que é o melhor do mundo?

Porque explica a verdade. Alguma coisa pode ser melhor que isso?É uma verdadeira obra-prima. Mas não tenho feito só poemas. Quer ouvir alguns dos meus pensamentos?


Tenho outra escolha?

Ouve só: “O homem sem imaginação tem os pés na terra; ele não tem asas, não sabe voar”. E este: Quando estamos certos, ninguém se lembra; quando erramos, ninguém se esquece”. Gosto muito deste, ouve só: “A riqueza do homem está no conhecimento; não está no banco, ele não a possui, porque está no banco”. Pegou todos, hein?


Peguei, Mohammed.

Então tem mais: “O carcereiro está em pior situação do que o prisioneiro, porque, enquanto o corpo do prisioneiro está fechado, é a mente do carcereirto que está aprisionada”. Sábias palavras de Mohammed Ali! E este, sobre a beleza, ouça lá: “Só quem atingiu a beleza interior é que pode apreciar a beleza em todas as suas formas”. E o que você acha deste: “O amor é uma rede em que os corações são apanhados como peixes”.


Um pouco piegas, não é, Ali?

Na hora que eu te vi, percebi logo que não era um cara inteligente. Mohammed Ali é muito mais profundo que o boxe, meu filho.


Você está parecendo uma cópia em negativo de um racista branco. Vamos lá: você acha que o linchamento é a resposta ao sexo inter-racial?

Na América, um negro deve morrer se for apanhado com uma branca. E os brancos sempre os mataram. Lincharam negros que olharam para mulheres brancas. Mas nós mataremos qualquer homem, branco ou negro. Diga isso ao presidente – ele não vai fazer nada a respeito. Diga isto ao FBI: vamos matar qualquer um que se engraçar com as nossas mulheres. Que ninguém mexa com elas.


E se uma mulher muçulmana quiser sair com um não-muçulmano, negro ou branco?

Nesse caso, ela morre também.


E se todos os negros americanos se tornasse muçulmanos, o que você acha que aconteceria?

O presidente Ford chamaria nossos líderes e negociaria os estados que estava disposto a nos ceder.


Entregar uns tantos estados aos líderes religiosos?

Talvez sim, talvez não. Talvez nos dar a Geórgia, o Alabama, O tennessee, o Kentucky, e nós nos fecharíamos por lá. Os brancos teriam que mostrar passaporte para entrar. Ou então promover um êxodo em massa. Gostaria de poder ver isso antes de morrer. Mas agora deixa eu perguntar uma coisa.


Manda.

Você acha que eu ainda sou tão bonito como no começo da carreira?