sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Clarice Lispector - Correio Feminino

A essa altura todo mundo já sabe que as frases assinadas por Clarice Lispector, tão cheias de lições de vida e por isso mesmo tão rasas e bregas, que pipocam nas redes sociais, jamais teriam saído da boca da escritora de sintaxe inovadora e pensamentos profundos. Para diferenciar a verdadeira Clarice da falsa Lispector, você pode até adotar uma regra com segurança: se você entendeu o texto de primeira, pode estar certo de que não é dela. Será?

Para quem estava acostumado com a complexidade de sua obra, a publicação de Correio Feminino (Editora Rocco, 2006) é uma novidade. O livro é uma coletânea de artigos que a autora escreveu sob pseudônimo em jornais durante os anos 50 e 60. Dirigidos ao público feminino, os textos fariam uma feminista do século 21 ter convulsões. Refletindo o conservadorismo da época, colocam as mulheres em papel subserviente e inferior. Outros tratam apenas de detalhes como qual a melhor maquiagem ou dicas de etiqueta.Outras vezes, a escritora descamba para a mais barata autoajuda. Correio Feminino é sem dúvida uma surpresa para o leitor de Clarice.

Abaixo, coloco alguns trechos do livro Correio Feminino, de Clarice Lispector:.




Lista das 10 coisas que os homens detestam:
1- Vestido muito justo
2- Pintura excessiva, principalmente nos olhos
3- Modas sofisticadas e complicadas
4- Saltos muito altos
5- Batom exagerado
6- Meias com costura torta
7- Excesso de joias
8- Decote exagerado
9- Moça desembaraçada demais
10- Mulher sabichona



"Se o seu marido está acostumado a vê-la despenteada, em chinelas, de roupa desleixada, sem pintura, aos poucos ele irá esquecendo a figurinha bonita que o atraiu antes, quando você só lhe aparecia enfeitada e perfumada. Começará a perguntar a si mesmo, o que existe em você, afinal, de interessante... e a resposta é perigosa, minha cara!
  (...) A faceirice, é, portanto, obrigação para a mulher. Nem a mulher de negócios, nem a cientista, nem a mulher de letras, nem a esportista dispensam esse dever primordial para a conquista do homem. Afinal, podemos pensar deles o que quisermos, mas precisamos deles para completar a nossa felicidade, não é mesmo?"

Discrição
"Você naturalmente sabe que chamar a atenção não é de bom-tom e dá sempre uma impressão muito má da mulher. Seja pela roupa escandalosa, pelo penteado exótico, pelo andar, pelos modos, pela risada grosseira, seja, enfim, de que maneira for, a mulher que chama a atenção sobre a sua pessoa o único troféu que merece é o da vulgaridade."

 Manias que enfeiam
 Existem muitas, e muitas também são as mulheres que as cultivam, sem pensar que com isso estão se prejudicando. Por exemplo, a mania de estar sempre comendo alguma coisa, como um chocolate, um caramelo, um sorvete, como se vivesse eternamente com fome. Além de extremamente deselegante, dá a impressão de que não come o bastante em casa. Os homens detestam isso. Sem falar nas gordurinhas supérfluas que essa gulodice constante faz aparecer.


Discrição.
Você naturalmente sabe que chamar a atenção não é de bom tom e dá sempre uma impressão muito má da mulher. Seja pela roupa escandalosa, pelo penteado exótico, pelo andar, pelos modos, pela risada grosseira, seja, enfim, de que maneira for a mulher que chama a atenção sobre a sua pessoa ou único troféu que merece é o da vulgaridade.

Os homens, geralmente muito discretos, detestam as mulheres que se destacam demais, onde quer que apareçam.



Uma coisa é certa: nós, mulheres, desejamos e temos o dever de agradar aos homens.


                             
Gestos, palavras, atitudes

Muitas de vocês, leitoras, hão de conhecer esse tipo feminino, infelizmente hoje não tão raro como seria de des4ejar: a mulher de gestos exagerados, palavras livres e atitudes deselegantes. Interpretando mal a independência da mulher moderna, ela fuma como  um homem, em público, cruza as pernas com uma desenvoltura chocante, solta gargalhadas escandalosas, bebe com exagero, usa gíria de mau gosto, palavreado grosseiro, quando não se desmoraliza repetindo palavrões.


O melhor é não fumar, tanto para homens como para mulheres. Mas,se vocês fuma, fume bem, fume com jeito feminino.


Algumas pessoas têm o hábito prejudicial de deixar animais de estimação dormindo no mesmo aposento de seus donos. Se as crianças,depois de alguma idade, podem dormir em quartos separados, sem perigo, porque não podem os cachorrinhos mimados ou os gatos mais queridos? Compreendo e compartilho o amor aos animais, o cuidado e o carinho que eles merecem de nós, mas esse triste costume de ter animais no próprio quarto de dormir é errado, além de perigoso.

Lavar com frequência as roupas de uso interno, significa, além de bom gosto, conservá-las por mais tempo. Qualquer tecido se enfraquece, se, na lavagem, é necessário esfregá-lo muito para torná-lo limpo.


As brigas
Os casais que brigam eventualmente são infelizes? Há mulheres que começam a falar cedo, tentando implicar com o marido, e se esse consegue guardar um silêncio heroico, começam a acusá-lo de indiferente, cruel e marido que não presta atenção ao que diz a esposa. Essas mulheres, com tal atitude, estão apenas criando um abismo entre elas e o marido, vítima da incompreensão e do egoísmo da esposa.


Uma mulher que recebe o chefe do lar com um ar cansado, que desfiando a ele um rosário de lamúrias sobre seus problemas caseiros, brigas com as empregadas e as malcriações dos filhos, está entediando o marido e só conseguirá que ele se aborreça gradativamente do seu lado, Numa tal atmosfera, os aborrecimentos que o marido talvez traga da rua, suas preocupações, seus problemas, não encontram uma válvula de escape e aumentam, tornando-o mal humorado, nervoso e pouco apto para resolver as situações que o aguardam no dia seguinte.

Que deverá você fazer para ajudar seu marido a progredir na vida? Primeiramente, deve mostrar-lhe, por diversos meios, que tem confiança nele: ao mesmo tempo, deve tomar interesse por seu trabalho, ouvir suas longas dissertações sobre os acontecimentos do dia, e procurar manter sempre a casa limpa, apresentar refeições gostosas e agradáveis à vista.



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Entrevista Haruki Murakami


Abaixo, brevíssimos trechos de uma entrevista do escritor Haruki Murakami para a revista alemã Der Spiegel.

Eu não sou inteligente. Eu não sou arrogante. Eu sou como as pessoas que leem meus livros. Eu tinha um clube de jazz, e eu fazia os coquetéis e eu fazia os sanduíches. Eu não queria me tornar um escritor -  simplesmente aconteceu. É uma espécie de presente, você sabe, dos céus. Então eu acho que deveria ser muito humilde.



SPIEGEL: Você é um escritor melhor pelo fato de correr?
Murakami: ...: Definitivamente. Quanto mais fortse meus músculos ficam, mais clara fica mente. Estou convencido de que os artistas que levam uma vida pouco saudável se esgotam mais rapidamente Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin foram os heróis da minha juventude - todos eles morreram jovens, mesmo que não merecessem. Somente  gênios como Mozart ou Pushkin merecem uma morte precoce. Jimi Hendrix foi bom, mas não tão esperto, porque ele usava drogas. O trabalho artístico não é saudável;. Um artista deve levar uma vida saudável  pra compensar isso. Encontrar uma história é uma coisa perigosa para um escritor, correr me ajuda a evitar esse perigo.

Spiegel: O senhor poderia explicar isso?
Murakami:. Quando um escritor desenvolve uma história, ele é confrontado com um veneno que está dentro dele Se você não tem esse veneno, sua história vai ser chata e sem inspiração É como fugu:. A carne do baiacu é muito saborosa, mas as ovas, o fígado, o coração podem ser letalmente tóxicos. Minhas histórias estão localizados em uma parte escura e perigosa da minha consciência, eu sinto o veneno em minha mente, mas eu posso afastar uma alta dose porque eu tenho um corpo forte. Quando você é jovem, você é forte, então você pode facilmente dominar o veneno, mesmo sem treinamento, mas para além da idade de 40 a sua força diminui, você não pode mais lidar com o veneno se você não levar uma vida saudável.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Mario Quintana

Apesar de ser um ícone literário da cidade onde  nasci (ou talvez por isso mesmo), nunca havia lido Mario Quintana além dos seus livros infantis. (não sei se eram propriamente infantis, mas minha mãe os lia para mim quando criança).

E Quintana, junto com Verissimo, Lispector e Caio Fernando Abreu, é uma daquelas vítimas de frases e textos com falsa atribuição de autoria que se espalham como praga pela internet. Por isso fui ler só pra constatar que ele não é bem aquele velhinho bondoso e cheio de esperança que as pessoas gostam de pensar que ele seja. Pelo contrário. Abaixo, alguns trechos de Quintana.


Libertação

A morte é a libertação total:
A morte é quando a gente pode, afinal,
Estar deitado de sapatos...



Reflexos, reflexões

I
Quando a idade dos reflexos, rápidos, inconscientes, cede lugar à idade das reflexões – terá sido a sabedoria que chegou? Não! Foi apenas a velhice.

II
Velhice é quando um dia as moças começam a nos tratar com respeito e os rapazes sem respeito nenhum.

III
Ora, ora! não se preocupe com os anos que já faturou: a idade é o menor sintoma da velhice.


A divina caçada

Parece que foi Gagarin, glorioso herói do espaço, que disse que não viu Deus nas alturas – ele que bem devia saber que não existe um “lá em cima” nem um “lá embaixo” – suposta moradia de Deus e do Diabo. Quando a gente era deste tamanhozinho, aí sim, Deus estava logo ali por detrás das estrelas, todas elas muito perto também. Depois nos aconteceu, com a sapiência adulta, essa infinita distância... Mas na verdade as crianças estavam mais próximas da verdade. Pois Deus não será a procura de Deus? Aquilo mesmo que, dentro de nós, o procura? Tanto assim que o próprio “herege” Renan, perguntando-lhe alguém se Deus existia, respondeu simplesmente: - Ainda Não.

Raízes

Quando colegial, como eu gostava do cheiro úmido das raízes dos vegetais! Porém, ao lado desse mundo natural, queriam-me fazer acreditar no mundo seco das raízes quadradas, que para mim tinham algo de incompreensíveis signos de linguagem marciana. Mas a tortura máxima eram as raízes cúbicas. Felizmente agora os robôs tomaram conta disso e de outras coisas parecidas com eles... Felizmente não mais existe o meu velho professor de matemática. Se não ele morreria aos poucos de raiva e frustração por ser ver sobrepujado, por me ver continuando a fazer coisas aparentemente insólitas porque não constam de currículos e compêndios, porque agora, meu caro professor, agora o marciano sou eu mesmo.



A revelação
 Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... E não a gente a ele!


Está na cara
Uma cara é algo que reconhecemos á primeira vista mas é dificílimo ou impossível descrever traço a traço. Porque a memória é instantânea. Não lhe peçam explicações. Seria como pedir a um relâmpago que nos desse uma exibição em câmera lenta.

E da mesma forma que dizemos na rua: “Olha o Fulano!” – a gente logo exclama ao folhear um álbum:

“Olha um Renoir! Olha um Van Gogh! Olha uma Tarsila!” E assim também se nos dizem um poema:

“Mas isto só pode ser da Cecília, do Lorca, do Apollinaire!”

Porque o estilo é a cara.


Depois de tudo
Acusarem um poeta de ser egoísta é acusá-lo de ser ele mesmo.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Frases Iniciais - Haruki Murakami

Abaixo, frases de abertura de alguns livros de Haruki Murakami lançados no Brasil. Não resisti e coloquei também a última frase. Se tiverem de outros livros, agradeceria contribuições.

Norwegian Wood

Primeira:
Eu tinha 37 anos e estava a bordo de um Boeing 747.

Última:
Do centro sem vida desse lugar que não era lugar nenhum, eu continuava a chamar por Midori.



Caçando Carneiros

Primeira:
Soube de sua morte por um amigo.

Última:
Às minhas costas, ondas marulhavam baixinho.


Dance Dance Dance

Primeira:
Sonho constantemente com o Hotel do Golfinho.

Última:
- Yumiyoshi..., amanheceu... – sussurei.



Minha querida Sputnik

Primeira:
Na primavera do seu vigésimo segundo ano, Sumire apaixonou-se pela primeira vez.

Última:
O sangue já deve, à sua maneira silenciosa, ter vazado por dentro.

sábado, 27 de outubro de 2012

Woody Allen - On being funny

Os trechos abaixo foram retirados de uma edição de 1975 do livro On being funny, de Eric Lax. Fala-se de todos os filmes feitos por ele até então, ainda antes de ter ganho o Oscar (e o respeito de muitos) com Annie Hall. Há algumas revelações interessantes, como o fato de ter considerado Brasília como cenário da comédia futurista dos anos 70 Sleeper.


1975
Eu faço filmes porque eu tenho uma compulsão por fazê-los. Simplesmente tenho que fazê-los, não sei por quê.


Não há dúvida de que comédia é mais difícil de fazer do que coisas sérias. E não há dúvida na minha cabeça de que comédia é menos valiosa que coisas sérias. Tem menos impacto também, e acho que por uma boa razão. Quando a comédia aborda um problema, brinca com ele, mas não o resolve. O drama já o trabalha de uma forma mais satisfatória. Não quero soar áspero, mas há algo de imaturo, algo de inferior em termos de satisfação quando comparada ao drama. E  será sempre assim.


Não acredito que um homem da minha inteligência tem que caminhar engraçado para fazer as pessoas rirem.

Escrever pode ser muito difícil. Há horas em que escritores fazem qualquer coisa para evitar escreverem – pegar um trabalho como diretor ou ator, por exemplo.


(Sobre achar uma locação para o filme Sleeper)
O problema de achar uma locação adequada parecia interminável. Woody  não queria construir cenários exceto quando absolutamente necessário, então eram necessárias enormes operações logísticas para deslocar o elenco e a equipe por quase toda Califórnia e boa parte do Colorado. Embora tivessem a chegado a pensar seriamente em filmar em Brasília, o projeto foi abortado por causa das despesas e dos costumeiros problemas de se filmar no Brasil.


(Antes de filmar Annie Hall)
Eu queria fazer uma comédia mais profunda. Eu queria fazer um filme mais humano – comédia mas com gente de verdade. Não sobre um cara que acorda no futuro, ou um cara que é um ladrão de bancos, ou um cara que toma um país latino-americano. Eu queria fazer um em que eu pudesse fazer o papel de mim mesmo, Diane [Kteaton] pudesse fazer o papel dela mesma, vivendo em Nova Iorque. Conflito, mas verdadeiro, ao contrário de uma ideia mirabolante demais.



(Antes de ganhar o Oscar) 
Há duas coisas que me incomodam sobre prêmios. Eles são políticos e comprados e negociados, e a concepção toda de um prêmio é tola. Eu não posso acatar o julgamento dos outros, pois se você aceitar quando dizem que você merece um prêmio, então também vai ter que aceitar quando dizem que não merece. Você se coloca nas mãos deles no momento em que é julgado, e você fica lisonjeado, e no ano seguinte eles dizem “Não, você não vai ganhar, quem vai Ganhar é o Steve McQueen” – e você sabe que estava ótimo. A coisa toda vai contra tudo pelo qual trabalhou na vida.




Eu faço o papel de mim mesmo. Eu não poderia fazer o papel de Romeu ou de Michael Corleone no Poderoso Chefão.






segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Norwegian Wood - trecho

Haruki Murakami, ou Murakami Haruki, como dizem os japoneses, liderou as apostas para o Nobel de Literatura de 2012. Sim, ele é um best-seller respeitado, é inovador e um enigma para qualquer estudioso de literatura. Mas creio que não faz muito o perfil da Academia Sueca, que tem a tendência de preferir autores mais engajados politicamente.

Um de seus livros mais famosos, Norwegian Wood (Objetiva, tradução de Jefferson José Teixeira), é bem diferente do resto de sua obra, tendo uma narrativa mais realista que a de suas outras obras. É engraçado que este romance de formação seja o livro favorito de muita gente, mas também é um pouco difícil defendê-lo. A estrutura não inova, o estilo é quase banal e é bem difícil encontrar frases de malabarismo sintático. É um livro de uma simplicidade enganadora: os personagens são fortes, e a sua beleza se esconde em pequenas sutilezas. Norwegian Wood foi adaptado para o cinema recentemente.

Abaixo, coloco um trecho.




(...) Mesmo assim, Midori continuava interpretando alegremente as canções, espaçando-as com goles de cerveja. Ao terminar de cantar todas as canções conhecidas, começou a entoar uma estranha música de sua autoria.

Adoraria cozinhar um guisado para você
Mas não tenho panela.
Adoraria tricotar um cachecol
Mas não tenho lã.
Adoraria escrever poesias
Mas não tenho caneta.

   - O título da canção é “Não Tenho Nada” – disse Midori. Tanto a letra quanto a música eram sofríveis.
   Ao mesmo tempo em que ouvia essa música sem pé nem cabeça, eu imaginava que, se as faíscas atingissem o posto de gasolina, a casa onde estávamos voaria pelos ares. Cansada de cantar, Midori pôs o violão de lado e encostou-se a meu ombro como um gato se espreguiçando ao sol.
    - O que achou da minha música? – perguntou ela.
    - Singular, original, expressa bem sua personalidade – respondi com todo o tato possível.
    - Obrigada – agradeceu ela. – O tema é não ter nada.
    - Acho que consegui entender isso.
    - Sabe, quando a minha mãe morreu... – Midori virou-se para mim.
    - O que houve?
    - Não fiquei nem um pouco triste.
    - É mesmo?
    - E também não senti tristeza quando papai partiu.
    - Verdade?
    - Sério. Não acha horrível? Não me acha insensível?
    - Tenho certeza de que foi por causa das circunstâncias.
Adaptação cinematográfica
- Sim, aconteceu muita coisa – disse Midori. Aqui em casa era tudo muito complicado. Mas eu sempre pensei que seria natural ficar triste quando o pai da gente parte ou a mãe morre. Comigo as coisas não aconteceram desse jeito. Eu não senti nada. Nem tristeza, nem solidão, nem dor, e praticamente não penso neles. Às vezes eles aparecem nos meus sonhos, só isso. De dentro da escuridão, minha mãe me encara e me acusa dizendo: “Confesse que está contente por eu ter morrido.” Não estou particularmente alegre com a morte dela. Só não estou tão triste assim. Para ser sincera, não chorei uma lágrima sequer. Ao contrário, quando eu era pequena chorei a noite toda porque meu gato morreu.
    Eu me perguntava a razão de tanta fumaça. Era impossível enxergar o fogo e o incêndio não parecia ter se alastrado. Só a fumaça subia aos céus sem cessar. Eu pensava no que poderia estar queimando por tanto tempo.
    - Mas a culpa não é só minha. Admito que não sou um poço de sensibilidade. Mas se eles, quer dizer, se meu pai e minha mãe me amassem um pouco mais, provavelmente minha maneira de sentir seria diferente. Eu certamente teria ficado bem mais triste.
    - Você acha que não foi amada?
    Ela inclinou o pescoço e olhou para mim. E sacudiu a cabeça afirmativamente.
    - Seria um meio-termo entre “insuficiente” e “nulo”. Sempre fui ávida por afeto. Queria receber amor até me saciar, mesmo que fosse por uma única vez. Mas eles nunca me ofereceram seu amor. Se eu fazia ares de criança mimada pedindo alguma coisa, eles invariavelmente reclamavam alegando não ter dinheiro. Por isso prometi a mim mesma fazer o possível e o impossível para encontrar alguém que me amasse integralmente todos os dias do ano. Tomei essa resolução quando ainda estava no primário.
    - Fantástico! – exclamei admirado. – E  conseguiu?
    - Aí entra a parte difícil da história – disse Midori, e por alguns instantes permanceu pensativa admirando a fumaça. – Provavelmente por ter esperado demais, eu sempre exijo perfeição. Por isso é complicado.
    - O amor perfeito?
    - Não. Nem eu espero tanto. O que desejo é um capricho. Só um capricho. Por exemplo, eu digo agora que estou com vontade de comer torta de morango com chantilly. Então, você larga tudo o que está fazendo e vai correndo comprar. E volta arfando e me entrega dizendo: “Aqui está, Midori. Sua torta de morango com chantilly.” E eu, jogando a torta pela janela, digo: “Ah, já perdi a vontade.” É isso que eu procuro.
    - Isso não me parece ter nenhuma relação com amor – opinei, um pouco espantado.
    - Aí é que você se engana. Não sabia? – disse ela. – Há épocas em que esse tipo de coisa é de suma importância para uma garota.
    - Atirar tortas de morango com chantilly pela janela?
    - Exatamente. E eu quero que o rapaz me diga: “Tudo bem, Midori. O errado fui eu. Eu deveria ter pressentido que você perderia a vontade de comer torta de morango com chantilly. Sou tão idiota e insensível quanto bosta de jumento. Para me redimir, vou comprar qualquer outra coisa que você queira. O que você deseja? Uma musse de chocolate, ou quem sabe uma torta de queijo?”
    - E aí?
    - Aí eu o amaria perdidamente pelo que ele fez.
    - Acho essa história completamente sem pé nem cabeça.
    - Pois, para mim, isso é amor. Embora ninguém seja capaz de compreender – Midori sacudiu levemente a cabeça contra o meu ombro. – Para certo tipo de pessoas, o amor começa em coisas minúsculas ou insignificantes. Só pode começar assim.
    - É a primeira vez que conheço uma garota que pensa assim.
    - Sabe que muita gente me diz a mesma coisa? – disse ela, cutucando as cutículas. – Mas eu só consigo pensar as coisas seriamente. Estou só sendo sincera. Nunca me passou pela cabeça que pudesse haver diferenças entre a minha maneira de pensar e a dos outros, e nem eu desejo isso. Mas quando sou sincera todos acham que é brincadeira ou encenação. Por isso as coisas às vezes ficam complicadas.
    - É nessas horas que você deseja morrer num incêndio?
    - Não, claro que não. Foi só uma questão de curiosidade.
    - Morrer num incêndio?
    - Não. Eu só queria ver a sua reação – disse Midori. – Mas não tenho medo de morrer. Mesmo. A fumaça nos envolve, perdemos os sentidos e morremos, e pronto. Num piscar de olhos. Isso não me apavora. Principalmente comparado com o modo como minha mãe e outros parentes meus morreram. Sabia que em nossa família todos morrem de doenças graves, agonizando desesperadamente até o fim? Deve ser coisa de sangue. Leva muito tempo até morrerem. No final, não se sabe dizer se ainda estão vivos ou mortos. Só resta a consciência da dor e do sofrimento.
    Midori levou um Marlboro à boca e o acendeu.
    - Sabe, o que me mete medo é esse tipo de morte. A sombra da morte invade o território da vida devagar, bem devagar, e quando menos se espera tudo escurece, não se enxerga mais nada, e cai-se prostrado numa condição tal que as pessoas o consideram mais morto do que vivo. Eu odeio isso. Não poderia suportar isso.

Mesmo best-seller, Murakami se recusa a usar gola rulê

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mo Yan, Nobel 2012

Trecho inédito do livro Peitos grandes, quadris largos, não lançado no Brasil ainda, do chinês Mo Yan, Prêmio Nobel de Literatura em 2012. O trecho abaixo é a primeira tradução de Mo Yan para o português brasileiro.



Shangguang Lu aquiesceu. Outra explosão viajou com o vento, dando início a uma rodada de latidos de cães assustados. A forte voz de Sima Ting veio em espasmos: "Meus concidadãos, fujam para salvar suas vidas, não esperem nem mais um minuto ..." Ela sentiu o bebê dentro dela chutar, como se em resposta a Sima Ting, as dores lancinantes expelindo gotas de suor rançoso por todos os poros de seu corpo. Ela cerrou os dentes para evitar que o grito dentro dela explodisse. Através da névoa de lágrimas ela viu o exuberante cabelo preto de sua sogra, que ajoelhou-se diante do altar e colocou incensos de sândalo no queimador de Guanyin. A fumaça perfumada subiu e rapidamente encheu a sala.