sábado, 29 de agosto de 2009

WILCO E WEEZER

Apesar de achar que este bloghe também teria espaço para falar de música, nunca cheguei a me animar para isso. Talvez porque ache que há uma diferença essencial entre cinema & literatura e música. A ideia dos escritos aqui é dar minhas impressões sobre algumas obras, de maneira que possa dar algumas dicas de entretenimento inocente para meus poucos amigos. Mas logo percebi que isso não funciona com música. É que assim: posso não gostar de um filme e alguém me convencer que há aspectos que posso apreciar no filme, mesmo que sejam detalhes. Com bons argumentos, posso ser convencido de que algo até então fraco ganhe algum valor que eu não havia apreciado anteriormente. O mesmo ocorre com filmes. Mas com música a história é bem outra. Não acredito que alguém poderia me convencer a gostar de uma música que não suporto. Posso reconhecer a importância histórica de Bach, mas acho-o chato e ninguém vai me convencer do contrário. Podem dizer que Rossini é simplório, um compositor menor, mas vou continuar achando-o o máximo. Para mim, o gosto por música é algo profundamente pessoal. As razões para gostar de uma música são muito mais sentimentais que racionais.

É por isso que jamais poderia argumentar tentando convencer alguém de que uma música de que gosto é boa. Por exemplo, há duas bandas que considero hoje as duas melhores do mundo: WILCO e WEEZER. Mas nunca poderia me dar ao trabalho de convencer alguém disso.

posso dizer que pra mim são um refresco em tempos em que a crítica considera o pasteurizadíssimo U2 uma das maiores bandas de rock da história e o insuportavelmente chato Radiohead a melhor coisa surgida na última década. (Ah, falando nisso também vi os discos da Madonna figurarem entre os “Clássicos do Rock” num catálogo da Fnac, ao lado de Ac/Dc, Kiss, Queen e, é claro, U2).

WEEZER E WILCO têm algo que poucos têm hoje, que é vida. Apesar de bastante diferentes entre eles, têm características raras de se ver hoje em dia: são vibrantes, poéticos, inteligentes, engraçados, honestos, intensos, singelos, verdadeiros. Tudo aquilo que a vida deveria ser e não é.

sábado, 22 de agosto de 2009

Façanha?


Leio que o filme Cidade de Deus (um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos) está em terceiro lugar em uma lista do IMDB de melhores filmes da última década. Uau!

O problema é que a lista cai em descrédito total quando se descobre os que estão nas primeiras posições:

1º: Batman - O Cavaleiro das Trevas (o filme mais superestimado pela crítica moderinha atual)

2º O Senhor dos Anéis (hmm, quem sabe Harry Potter poderia entrar na lista também?)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O Amor Supera Tudo

Tenho notado uma coisa chata ao ler algumas opiniões sobre filmes. Em boa parte delas se diz que o filme em questão é uma história que mostra que “o amor supera tudo, inclusive o tempo”. Nem sempre dizem desse jeito, mas, com algumas variações, a ideia básica é essa. Já disseram isso de Benjamin Button. Sobre Quem quer ser um milionário já falaram algo parecido. Só sei que tenho fugido com tudo que posso de filmes que mostram como “o amor supera tudo, até mesmo o tempo”. Outro dia ouvi, na TV, essa definição de um filme: “é uma emocionante história de coragem e superação”. O que houve? Só porque os livros de autoajuda são um sucesso comercial estão querendo vender os filmes como se fossem sempre bonitas lições de vida?

Se formos ver, boa parte dos filmes pode apresentar isso como lição: Casablanca, Annie Hall, Mad Max, Psicose e muitos outros.


Tá, mas por que estou falando essas porcarias todas mesmo?

Ah, só pra dizer que O Lutador (The Wrestler) (já em dvd) foge um pouco disso: é um filme que mostra como “o tempo supera tudo, inclusive o amor”. Seja pela atuação grandiosa do Mickey Rourke, seja pela delicinha da Marisa Tomei (quanto mais velha melhor), vale muito a pena ver. Eu vi no cinema, e é o tipo de filme que vai perder um pouco a força vendo no monitor da TV (no do computador, então, nem se fala). O cartaz do filme é EXCELENTE também.



Infelizmente não me fez chorar, mas é um puta filme.



Frase do filme: Os anos 90 forma uma merda. Kurt Cobain acabou com toda a diversão.

domingo, 28 de junho de 2009

Guia do Brasileiro em Paris


Você já deve ter lido muitos livros de viagem (tá, bom, eu sei, não leu, mas deixa eu começar o texto assim, ok?), mas nenhum como este Guia do Brasileiro em Paris, de Mariléa de Castro (Artes e Ofícios Editora, 2008). Ao contrário de outros, este é inovador, diferente, gostoso e informativo.

Inovador
O livro de Mariléa é inovador pois não se limita a dar dicas de lugares para visitar. A autora realmente ama a cidade francesa e escreve para todos aqueles que desejam (ou já desejaram) muito conhecer Paris mas que, como ela, não têm tanta grana assim. Na verdade o livro bem poderia se chamar Guia do Brasileiro Pelado em Paris. Não é exagero, Brasileiro Pelado é uma figura criada pela própria autora para se referir aos que só podem ir pra Europa contando suas moedinhas depois de quebrar o porquinho (ou seja, quase todos nós). Não por acaso, o subtítulo é: Para aproveitar o máximo e gastar o mínimo.


Diferente
O Guia já começa de uma maneira inusitada. A autora instiga o leitor a se mexer, mostrando que, se ele não foi a Paris ainda, é somente porque ficou inventando desculpas esfarrapadas até agora. A introdução é pura motivação. Até quem nunca pensou em colocar os pés em Paris, como eu, fica tentado a conhecer a capital francesa. O tom que impera no resto do livro é de um bate-papo com o leitor, sem jamais descuidar da informação precisa.


Gostoso
A descrição de cada lugar não é meramente informativa, cada itinerário do Guia é um verdadeiro passeio pela cidade. Mariléa é realista e nos mostra que problemas, dificuldades e contratempos fazem parte de qualquer viagem, mas, no caso de Paris, os obstáculos apenas acrescentam um sabor de aventura ao roteiro. Ela conta suas roubadas e dá conselhos baseados nas suas boas e não tão boas experiências (lembre-se: tudo é aventura).




Informativo
Escrito de forma bastante pessoal, o Guia pode ser quase considerado um diário de viagem. Mesmo assim, informação precisa não falta no livro: desde a documentação que você tem que providenciar ao tomar a decisão de viajar (o que certamente deve ocorrer ao longo da leitura) até o momento da volta, passando por hospedagem, alimentação e (principalmente!) ga$to$, tudo está detalhada no Guia, com telefones, endereços, mapa das linhas de metrô e o que mais for preciso para o sucesso da sua viagem (até mesmo dicas sobre como arrumar a mala).

Nas palavras da autora:
Nos guias de viagens, quem é que nos conta a VERDADE mesmo – aquelas insidiosas, reles e constrangedoras miudezas que fazem a vida funcionar e a pessoa sobreviver no estrangeiro e cujo desconhecimento é que, em última análise, cria o vago bloqueio nosso de aventurar-nos pelo desconhecido?
As pessoas deixam de viajar não por medo de ficarem sem dinheiro na Europa ou se afogarem no mar Egeu ou, ainda, terem pneumonia no inverno. É pelo receio de não saberem como é que se chega, como funcionam as coisas, como é que se pede informações, como se faz para telefonar, quanto custa um café com leite ou um rolo de papel higiênico. Em sumo, se eu vou sobreviver sem fazer papel ridículo ou me sentir perdido.


Mais um trechinho, agora de um capítulo sobre alimentação:
Espírito de uma terra onde o comer não é pecado nem é feio, onde o barroco nunca deitou raízes, com seus dilemas cruciantes (Uma tarte-aux-pommes ou o meu regime?), e a Inquisição não teve as tintas mórbidas da Península Ibérica. A herança vital dos gregos e romanos resistiu sob o asceticismo e os esquálidos modelos medievais. (Está certo, os santos das fachadas góticas são magérrimos. Já os gárgulas...)


Lá pelas tantas, a própria autora reconhece o valor do livro, ao dizer, num capítulo sobre as opções de transporte: Quase tenho remorsos de fazê-lo chegar tão informadinho a Paris, roubando-lhe o friozinho no estômago.

O que já disseram:

Djegovsky:
É mais que um guia, é um companheiro de viagem.


Contras: os diversos erros de revisão que não precisavam estar lá.


4 estrelinhas


segunda-feira, 22 de junho de 2009

Sinédoque, Nova York



É o primeiro filme dirigido por Charlie Kaufmann, roteirista dos geniais Quero ser John Malkovich, Adaptação e Brilho Eterno de uma mente sem lembranças. O que esperar deste Sinédoque? Quem já viu seus outros trabalhos sabe que brincadeiras de metalinguagem e humor nonsense são comuns nos seus roteiros, e este não foge à regra. Mas o que antes parecia ter funcionado tão bem, agora decepciona.

No filme temos Caden Cotard, um diretor de teatro desesperado com sua mortalidade interpretado pelo sempre nojento (embora eterno queridinho da crítica) Phillip Seymour-Hoffman. O filme até começa bem, com diálogos ótimos, principalmente os entre sua mulher e sua filha. Até que Cotard ganha uma verba enorme para encenar uma nova peça, que decide ser sobre sua própria vida. A partir daí o espectador começa a se perder. Nos outros roteiros de Kaufmann, o espectador se segura em uma corda para conseguir ir até o final são e salvo. Em Sinédoque, a tal corda é um fino barbante que logo se parte, e deixa o espectador confuso, perdido e, principalmente, entediado. Às vezes ele pode achar que recuperou o fio condutor, mas logo se vê no escuro de novo.

O problema todo é a linguagem se Sinédoque fosse um texto seria um texto sem qualquer pontuação que pudesse orientar o leitor para piorar as coisas também seria um texto com uma sintaxe confusa com cada vez menos conectores entre palavras frases sem coesão coerência sem um fio condutor as repetições poderiam dar uma luz mas a insistência em ser pouco convencional não traz nada novo essa insistência em voltar ao elemento anterior que na verdade é posterior sem qualquer linearidade possível um texto com tempos verbais que não faziam sentido deixa-se de aproveitar tudo que poderia haver de interessante no filme para se ater ao que poderia haver de interessante no filme cada vez menos elementos precisos a maquiagem é boa a fotografia também a montagem não tem culpa a culpa é do roteiro mesmo mas Kaufmann é um grande roteirista jamais se perderia quem se perde é o espectador isso mesmo é posto em dúvida a confusão é proposital não é às vezes a convencionalidade faz falta que faz a convencionalidade seria um texto longo demais ninguém gostará de ler até o final afinal tem mais de duas horas e o resultado é assim o final tenta a redenção do homem e do filme do roteirista de todos mas era tarde demais.


Pois é, não entendi lhufas do filme.
Mas eu sou eu.


Nota final: 3,5

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Cinema é uma droga

Sim, me ocorreu isso outro dia.

Cinema é como uma droga no sentido de que nos faz bem, traz um sentimento novo e inusitado, bastante prazeroso, que nos faz pedir por mais. Com o tempo, contudo, precisamos de doses maiores para alcançar o mesmo nível de prazer de outros tempos. Assim, quanto mais filmes assistimos, menos impacto eles têm.

Lembro da primeira sessão de cinema da minha vida. Foi no Cine Center, do Centro Comercial (hoje Shopping) João Pessoa. Não era bem um filme, mas uma compilação de desenhos animados curtos da Disney. À época já tinha visto Mickey, Minnie, Pateta, etc, na tevê. Mas naquela sala escura e cheia dum silêncio esquisito não era a mesma coisa. Tinha cinco anos de idade e fiquei embasbacado com aquela tela enorme e aquele som alto. Aquilo me afetou de modo que nunca mais pude ver TV da mesma maneira.

Os anos passaram e vi outros filmes que me embasbacaram, chacoalharam, desnortearam, atropelaram. O problema é que, depois de uma milha de filmes, comecei a querer mais, como uma droga que tinha seu efeito amenizado com o uso frequente. É uma decepção não se emocionar mais com os filmes e prestar mais atenção na fotografia, por exemplo.

Talvez um tempo de abstinência me faça bem.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Ensaio sobre a Gagueira

Os carros parados esperam a mudança de luz do semáforo. Quando passa da luz vermelha para a verde, os carros avançam. Menos um. Motoristas buzinam impacientes, alguns descem dos carros e batem no vidro do veículo imóvel. O motorista, em desespero, não para de falar algo inaudível para os que estão do lado de fora. Quando finalmente abrem a porta, ouvem com espanto o que ele diz: E-e-es-t-t-tou g-g-g-g-ga-ga-ga-go!

Assim começa o premiado romance do escritor lusitano José Saramago. Trata-se de uma história cheia de simbolismo que nos faz lembrar da “responsabilidade de ter uma boa dicção quando os outros a perderam”. Em uma atmosfera opressora e sombria, Saramago nos leva em uma viagem onde a condição humana testa seus limites. Empurrados para situações extremas, os personagens ficam reduzidos à essência humana, revelando seu lado mais primitivo. Saramago, ao lado de visionários modernos como Kafka, Orwell e Sidney Sheldon, mostra uma sociedade em que o controle sobre o indivíduo é levado às últimas conseqüências. Em Ensaio sobre a gagueira a ação é descrita com tal realismo e crueza que o leitor se vê logo enredado nas trevas da psique humana em seu lado mais obscuro. Segundo o narrador, “Só num mundo de gagos as coisas serão o que realmente são”.

* Em breve será lançada a adaptação hollywoodiana do livro; e logo depois, a caneca.