segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Entrevistas de Playboy - Tom Jobim

Seguem trechos da entrevista que o Tom Jobim deu para a Playboy em 1988. O bom da Playboy é que seus entrevistadores entravam em detalhes que outros repórteres não costumam perguntar, dando espaço para declarações mais inusitadas, como é o caso do músico brasileiro.



Tom Jobim (1988)

Você já fez música para cantar alguém, no sentido de conquistar?

Olha, cada canção que eu fiz é uma moça que eu não comi. Uma vez eu disse isso pro Millôr Fernandes e ele rebateu com a seguinte frase: “Pois cada canção que eu não fiz é uma moça que eu comi.”[risos].

A bossa nova consagrou Ipanema como o paraíso do prazer. Quando você tinha 20 anos, em 1947, já era assim?
Bem, naquele tempo as moças eram virgens, né? Evidentemente, como todo mundo, as minhas primeiras transas foram com as empregadas. Mas havia muitos soldados americanos no Rio, logo depois da Segunda Guerra, e as moças tinham uma enorme admiração por eles, por causa do cinema, claro. Aos poucos, com os americanos, elas foram ficando mais dadas... [risos]

Em comparação com a Luma de Oliveira, que tal a mulher americana?
A mulher americana não tem bunda. – aliás, e mulher branca em geral. A não ser que faça ginástica ou seja bailarina, mas aí fica com bunda por causa dos músculos. Outro dia vi uma branca aí com uma bunda respeitável, mas não é comum. Bunda é negócio de preto mesmo – a própria palavra, por sinal, é de origem africana. Mulher branca tem mesmo é peito, mas a bunda é assim: achata atrás e abre para os lados.

Pelo visto, você não é daqueles que preferem as louras.
Como todo sujeito que tem sangue de branco, me inclino mais para as morenas. Mas eu sou chegado mesmo é numa negra.

No entanto, seus filhos puxaram mais para o seu tipo claro.
É que na hora H eu penso na Suécia [risos].

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Rubem Fonseca - O romance morreu

Estou sempre adiando a estatística de qual autor mais li na vida. Talvez porque não me decido se devo considerar o número de livros ou o número de páginas... Mas certamente Rubem Fonseca está entre os mais lidos - seja em número de livros ou de páginas. E quem o lê sabe que, apesar de ele ter um estilo próprio - bastante imitado, por sinal - também apresenta textos bastante diversos entre si ao longo dos anos, despertando certa curiosidade pela sua persona. Como é um dos famosos "escritores reclusos", a curiosidade aumenta mais ainda. E eis que surge um livro que vem para desvendar um pouco a aura de mistério que envolve sua vida pessoal. Será?


Não, não se trata de uma biografia. Em O romance morreu [Companhia das Letras, 2007] temos um Fonseca cronista, falando o que pensa sobre uma variedade de assuntos triviais. E o mais intrigante é que o escritor é bem menos interessante - e aparentemente menos inteligente - que os seus personagens. Muitos dos textos do livro poderiam ser encontrados em um blog despretensioso de alguém não inclinado ao mundo profissional das letras. São textos que decepcionam pela banalidade. Para quem se acostumou com suas narrativas cruas, cheias de violência e ironia, o autor está irreconhecível. Coloco aqui apenas um exemplo, para o leitor ter uma ideia do que vai encontrar em O romance morreu.



Cinema e pipoca: não existe união mais perfeita. Vá comer pipoca no cinema, é um procedimento universal. Mas não faça barulho, cuidado com os sacos de papel, eles podem emitir um ruído desagradável se forem mal manipulados. Cinema é pra ser visto em silêncio.

Atualmente, a melhor pipoca dos cinemas do Rio me parece ser a do cinema Leblon, hoje dividido em duas salas. Já fiz o teste várias vezes, e a qualidade tem se mantido inalterada há bastante tempo.

Tenho medo de que um dia o Leblon, que tem projeção e som de aceitável qualidade, abandone a pipoca e em seu lugar passe a oferecer café expresso aos frequentadores, para ser consumido na sala de espera – tente assistir a um filme bebendo cafezinho –, e que outros cinemas também sigam esse mau exemplo de exclusão. Café expresso é uma delícia que pode ser provada em inúmeros lugares da cidade, até em açougues, como o ótimo cafezinho da delicatessen do talho capixaba. Mas pipoca boa, fora de casa, já que as das carrocinhas decaíram muito, só existe nos cinemas, o lugar ideal para ser desfrutada. É preciso preservar essa tradição.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Uma vida iluminada

Uma das melhores cenas do filme Uma vida Iluminada - adaptação do livro Everything is Illuminated, do americano Jonathan Safran Foer - é a do restaurante, quando o protagonista, um vegetariano, passa por certas dificuldades para pedir sua comida.

Uma curiosidade: o rapaz de chapéu é Eugene Hütz, vocalista do Gogol Bordello, quase irreconhecível no filme.



Aqui a cena completa, com seu desfecho, com legendas em inglês (todo vegetariano já passou por algo parecido):

http://www.youtube.com/watch?v=um2p4GlEbKg

Entrevistas de Playboy - Pelé

Pelé é famoso por algumas frases, principalmente quando fala de política, como aquela em que diz que brasileiro não sabe votar. Na sua entrevista para a Playboy em 1993, foi claro ao falar de suas preferências políticas. No trecho abaixo, além disso,o ex-jogador também faz revelações sobre Xuxa:

Você a ajudou muito no começo da carreira, não?
Pois é. Nunca contei o que vou contar agora. Sei que fui importante na vida dela. Fui em quem, por exemplo, recolheu todas as fotos que ela tinha feito nua. Todas. Falei com os Civita, da Editora Abril, com os Bloch, da Manchete, com o fotógrafo Luís Trípoli, que fazia as fotos dela – tinha foto dela até em cima de táxi, em Nova York, de bunda de fora -, e todos foram muitos legais, compreenderam o meu esforço. Afinal, ela era uma menina sem maldade, muito natural, que encarava a nudez com a maior tranquilidade, tomava banho de sol nua para não ficar com as marcas de biquíni. A minha família não toleraria. O Roberto Civita me deu uma mala de fotos e de negativos. O Adolpho Bloch também e o Trípoli do mesmo jeito. Entreguei tudo para ela e disse: “Pronto, está tudo aqui. Ninguém vai usar mais. Quem trabalha com crianças precisa se cuidar”.

Sobre Paulo Maluf:
Acho que se ele tivesse sido o presidente o Brasil estaria melhor hoje em dia. Porque ele é um dos melhores administradores que temos, sem dúvida.

Sobre a ditadura:
Na época em que o Exército estava tomando conta a coisa não estava tão ruim assim.

Quem dizer que você acha que sem uma boa dose de autoritarismo não serão resolvidos os problemas brasileiros?
Eu acho que não.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Marketing na Literatura

Claro que você já viu marcas de produtos nos livros que você lê. Talvez isso não seja tão comum na literatura brasileira, mas na americana é difícil um best-seller que não apresenta marcas conhecidas. E isso é bem razoável: é diferente dizer que alguém dirige uma Mercedes ou um Fusca, ou que veste uma Levi's ou um Armani.  Em A Cura de Schopenhauer, o protagonista jamais toma café, ele "para num Starbuck's". Nos livros de Murakami ninguém simplesmente fuma, mas "acende um Marlboro". Falando em Murakami, os índices onomásticos de seus livros deixam bem evidentes o uso de nomes de marcas, que são, muitas vezes, referências de cultura pop. Mas aí fica a dúvida: será que não rola jabá na literatura? As editoras e os autores receberiam uma grana extra para fazer propaganda de certos produtos, assim como acontece no cinema?

Stephen King comenta o assunto neste trecho de uma entrevista para o The Paris Review.


O uso de nomes de marcas em seus romances parece irritar alguns críticos.
 
KING
Eu sempre soube que as pessoas teriam um problema com isso. Mas eu também sabia que nunca ia parar de fazer isso, e ninguém nunca ia me convencer de que eu estava errado ao fazê-lo. Porque toda vez que eu fiz, o que eu sentia era este bang! como se eu tivesse acertado na mosca, como Michael Jordan em um arremesso.
Às vezes o nome da marca é a palavra perfeita, e ela vai cristalizar uma cena para mim. Quando Jack Torrance está se enchendo de Excedrin em O Iluminado, você sabe exatamente o que é. Eu sempre quis perguntar a esses críticos, alguns são escritores, alguns deles professores de literatura da faculdade -Que merda que você faz? Abre o armário de remédios e vê vidros cinzentos vazios? Você vê o shampoo genérico, a aspirina genérica? Quando você vai ao mercado e compra umas cervejas, ele diz apenas cerveja? Quando você abre a porta da sua garagem, o que está estacionado lá dentro? Um carro? Apenas um carro?

E então eu digo para mim mesmo, eu aposto que eles fazem isso. Alguns desses caras, os professores universitários, o cara, digamos, cuja idéia de literatura parou com Henry James, eles são ignorantes sobre ficção Americana e eles transformaram a sua ignorância em uma virtude. Eles não sabem quem Calder Willingham foi. Eles não sabem quem Sloan Wilson foi. Eles não sabem quem Grace Metalious foi. Eles não sabem quem nenhuma dessas pessoas são, e eles têm orgulho disso. E quando abrem a porta do armário de remédios, acho que talvez eles vêem vidros genéricas, e isso é uma falha de observação. E eu acho que uma das coisas que eu tenho que fazer é dizer, é uma Pepsi, OK? Não é um refrigerante. É uma Pepsi. É uma coisa específica. Diga o que você quer dizer. Diga o que você vê. Faça uma fotografia, se você puder, para o leitor.


O francês Michel Houellebecq também é um fã do uso de marcas em seus livros, como afirma nesta entrevista também para o The Paris Review.


Você adora citar nomes de produtos. Por exemplo, "Robalo com cerefólio Monoprix Gourmet".
Houellebecq
"Robalo com cerefólio..." É interessante. É bem escrito. Eu também uso os nomes de produtos porque eles são, objetivamente, parte do mundo que vivo. Mas também tenho a tendência, é verdade, de escolher o produto com o nome mais atraente. Por exemplo, cerefólio é uma palavra muito atraente, mas não tenho idéia do que é cerefólio. Você quer comer algo com cerefólio. É bonito.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Cum on feel the noize - 3 em 1

Três versões de um clássico do rock. A primeira vez que ouvi Cum On Feel The Noize foi na pré-adolescência, com a banda de hard rock Quiet Riot, que teve seu único sucesso com esse cover da música do Slade. Aqui vão três versões em momentos bem distintos: a original nos anos 70, com Slade; a ressurreição nos 80, com Quiet Riot; e o revival dos 2000, com Oasis. Qual o melhor?

Slade
A animação da moça aos 1:04 é impressionante. 



Quiet Riot
Nunca é demais apreciar  a qualidade dos videoclipes oitentistas



Oasis
Nem parece cover. Transformaram em uma música do... Oasis

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Junichiro Tanizaki - Há quem prefira urtigas

Parece que só no século 21 a literatura japonesa começou a ser mais difundida no Brasil, com traduções de Haruki Murakami, Kobo Abe, Yasunari Kawabata, Kenzaburo Oe e tantos outros. Um desses outros é 谷崎 潤一郎, ou Junichiro Tanizaki. 

Nascido em 1886, Tanizaki era um defensor da cultura tradicional japonesa, negando a crescente influência ocidental na sua época. Mas não imagine que daí nasce uma literatura atrelada a rígidos padrões sociais orientais. Seus livros invariavelmente tratam de sexo, relacionamentos, fetiches e intimidade, temas caros a diversos autores. Porém, com Tanizaki são tratados com uma amoralidade rara no ocidente. Sua linguagem crua e direta causa desconforto ao leitor, justamente por deixar os personagens e as situações mais próximos da realidade do que gostaríamos.


Há quem prefira urtigas

No ano 2000, o autor britânico Hanif Kureishi lançou Intimidade, um livro que fala de um casal em crise: o homem decide se separar da mulher (com quem tem um filho) e passa o livro inteiro (cerca de 24h) tentando se convencer da sua decisão. Nesse meio tempo, é aconselhado por um amigo do casal, que apresenta um contraponto aos seus argumentos. Entram na história também aspectos sociais, culturais e religiosos. O título desse livro de Tanizaki é um dos mais instigantes que já vi. O curioso é que exatamente 70 anos antes, Junichiro Tanizaki havia lançado um livro com tema muito semelhante, apenas com pequenas variações: um casal com um filho está prestes a se separar, e o marido tem dúvidas, então conversa com um amigo da família,que apresenta um contraponto aos seus argumentos. A diferença é que Tanizaki ousou mais. Em Há quem prefira urtigas [Companhia das Letras, 2003]  o casal tem relacionamentos extra conjugais consentidos, e a indecisão se arrasta por muito mais que apenas um dia. Como em Shakespeare, seus diálogos são enxutos, sem sobras, funcionais, por vezes irônicos e sarcásticos. As personagens de Tanizaki não se desesperam diante do anormal em suas vidas, ele deixa esse papel para o leitor.





Abaixo, alguns trechos do livro. A tradução diretamente do japonês é da ótima Leiko Gotoda.


(aqui o marido fala com um amigo sobre Misako, sua esposa, e Aso, o amante dela)

– Resumindo, você achou que a melhor época para a separação é agora, quando o tempo começa a esquentar?
– Mais ou menos. Resta ainda um pouco de frio no ar, mas o calor já vem chegando. Logo as cerejeiras vão florir e brotos verdes despontarão por toda parte... O ambiente pode abrandar a tristeza.
– A opinião é apenas sua?
– Não. Misako também pensa como eu. Ela já disse: “Se for para nos separarmos, quero que seja na primavera. É a melhor época do ano”.
– Ah, essa não! Está querendo me dizer que, agora, vão esperar um ano inteiro até a próxima primavera?
– Não necessariamente. O verão também é interessante... O problema é que a minha mãe faleceu no mês de julho, em pleno verão, lembra? Nessa época, a paisagem inteira se ilumina e se enche de cores. Mas, naquele ano específico, senti, apesar de tudo, não haver estação mais triste que o verão. Eu não conseguia conter as lágrimas toda vez que contemplava a vegetação viçosa em tardes de calor sufocante, lembro-me disso muito bem...
– Está vendo? É por isso que insisto: não adianta esperar até a primavera! As cerejeiras podem estar floridas, mas, se você está triste, chora ao vê-las!
– Pode até ser que você tenha razão, mas... sem época ideal estabelecida, o leque de escolha se amplia tanto que me perco por completo...
– Estou começando a achar que esse divórcio nem vai acontecer.
– Acha mesmo?
– O que eu acho ou deixo de achar não é importante. Quero saber o que você acha.
– Pois não faço a menor ideia do que vai acontecer. Sei apenas que existem motivos absolutamente claros para uma separação. Se Misako e eu já não nos dávamos bem anteriormente, agora que ela começou esse caso com o Aso – caso esse cujo início, diga-se de passagem, não só permiti, como também incentivei – não há condição alguma para continuarmos casados. Aliás, já não estamos casados, essa é a verdade. Frente a frente com essa verdade, tanto eu como Misako não sabemos que caminho tomar: se o da tristeza momentânea ou o do sofrimento para o resto de nossas vidas. Melhor dizendo, a resolução já está tomada. Falta-nos apenas coragem para levá-la avante.
– Mas, se vocês já não são mais marido e mulher, o divórcio significaria apenas não morar na mesma casa. Esse tipo de raciocínio não lhe traz alívio?
– Eu me esforço para raciocinar dessa maneira, mas não ajuda muito.
– E também temos que considerar o Hiroshi. Mas até mesmo para ele a separação vai significar apenas que o pai e a mãe vão morar em casas diferentes, não quer dizer que ele deixe de ser o filho querido da Misako.
– É óbvio que existem famílias em circunstâncias semelhantes no mundo inteiro. Diplomatas ou funcionários designados a servir no interior costumam seguir sozinhos para seus postos ou deixam filhos com parentes em suas cidades natais. Sem falar nos casos das crianças do interior que vêm morar sozinhas na cidade grande para continuar seus estudos. Se compararmos, Hiroshi está em melhor situação, sei disso. No entanto...
– Em outras palavras, é você que está triste. Mas a realidade não é tão triste quanto você imagina.
– Pois tristeza é isso, não é? Subjetiva, afinal de contas... O problema principal é que Misako e eu não conseguimos nos odiar mutuamente. Como seria fácil, se conseguíssemos... Em vez disso, cada um acha que o outro está coberto de razão. Isso é mal...
– A solução mais fácil e prática seria Misako e Aso se casarem, sem nada dizer a você.
– Tempos atrás, Aso parece ter proposto essa solução, mas, pelo jeito, Misako respondeu entre risadas que só conseguiria tomar uma atitude tão ousada se a drogassem e a levassem embora enquanto dormia.
– E se você provocasse uma briga com ela?
– Também não daria certo porque estaríamos representando e saberíamos disso. Não adianta berrar um para o outro: “Saia já da minha casa!” e “Saio com muito prazer!” porque na hora de sair mesmo acabaríamos chorando...
– Vocês dois são realmente problemáticos! Cheios de histórias até para se separar...
– Bom seria se houvesse algo assim como um entorpecente psicológico... Você sentiu ódio da Yoshiko por ocasião do seu divórcio?
– Eu a odiei, mas ao mesmo tempo tive pena dela, entende? Ódio real, que vem do fundo da alma, um homem só é capaz de sentir por outro homem.
– Desculpe-me se o ofendo, mas... é menos complicado divorciar-se de mulheres que, no passado, já foram “profissionais da noite”, não é? A maioria delas é decidida, já conheceram e se separaram de muitos homens e, se quiserem, podem voltar facilmente à profissão anterior...
– Ainda assim, a separação não é fácil.
Por instantes, Takanatsu manteve o cenho franzido, mas logo recuperou a animação inicial e disse:
– Essa questão é semelhante à das estações do ano. Na hora de separar, não existem parceiras fáceis ou difíceis, do mesmo jeito que não existem estações propícias ou desfavoráveis, entendeu?
– Tem certeza? A mim me parece que as do tipo rameira são mais fáceis que as do tipo caseira. Será impressão minha?
– Pois as rameiras são até mais comoventes pelo próprio fato de aparentarem frieza. Há também um outro problema a considerar: o caminho que tomam depois do divórcio. É um alívio quando conseguem casar de novo e sossegar, mas, se retornam à antiga profissão, comprometem de certa maneira a reputação dos ex-maridos, entende? Eu mesmo me posiciono acima dessas picuinhas, claro... Seja como for, você há de convir que, rameiras ou caseiras, ninguém consegue, sem tristeza, separar-se de uma mulher.
   Por instantes, os dois apenas remexeram em silêncio o cozido na panela. Juntos, não haviam ainda esvaziado duas botijas de saquê, mas a suave embriaguez era persistente, afogueava-lhes o rosto e lembrava a aproximação da primavera.

Muitas páginas adiante, num novo diálogo de Kaname com Takanatsu, a situação continua:

– Por um lado você reclama que é difícil se separar dela, e, por outro, age dessa maneira totalmente irresponsável. Você é displicente demais!
– Displicente sempre fui. Mas penso que cada indivíduo pode ter seu próprio padrão ético e viver de acordo com ele.
– Pode ser. E, nesse caso, o seu diz que a displicência é uma virtude?
– Virtude talvez não seja, mas pessoas que não têm capacidade decisiva não deviam tomar decisões à força contrariando a própria natureza. Pois, toda vez que tentam fazer isso, a dose de sacrifícios aumenta inutilmente e traz consequências desagradáveis. Pessoas displicentes devem também estabelecer o curso de ação mais adequado ao seu temperamento. E, aplicando a minha teoria ética à situação atual, concluo que, se o bem maior é o divórcio, basta apenas que eu o alcance no final, não importa quão tortuoso seja o curso para se chegar a ele. Na verdade, acho até que eu podia ser um pouco mais displicente.
– Desse jeito, você é capaz de levar a vida inteira para alcançar seu bem maior.
– Pois já pensei seriamente nisso. Dizem que adultério era um fenômeno corriqueiro na aristocracia ocidental. Todavia, entre eles o adultério não era praticado às ocultas, mas tacitamente reconhecido pelos cônjuges. Eram casos semelhantes ao meu. Pois, se a sociedade japonesa permitisse, eu mesmo não me incomodaria de passar a vida inteira na situação atual.
– Tais costumes estão ultrapassados no Ocidente. A religião perdeu o poder de manter os casais unidos, entendeu?
– Não era somente a religião que os mantinha unidos. As pessoas talvez temessem romper abruptamente os laços com o passado, quem sabe?
– Você tem o direito de fazer o que quiser. Eu, porém, não vou mais me preocupar – disse Takanatsu asperamente, apanhando o livro caído no chão.
– Por que não?
– É óbvio, não é? De que maneira um estranho pode intervir num processo de divórcio tão mal definido?
– Você vai me deixar em apuros!
– Paciência.
– Se você nos abandonar, estaremos perdidos de verdade. A situação se tornará ainda mais confusa! Vamos, não nos abandone, eu imploro.
– De um jeito ou de outro, vou esta noite para Tokyo com Hiroshi. – declarou Takanatsu, folheando o livro friamente.