domingo, 21 de novembro de 2010

Intelectual Enrustido


Ele é ator - estudou arte dramática na Suíça -, diretor, roteirista multipremiado, romancista  e produtor de cinema. É um homem de ideias, um humanista (seu filme mais recente é uma denúncia contundente contra as violações aos direitos humanos na Birmânia). É inteligente e tem senso de humor. Como hobby, pinta quadros abstratos. Apenas uma coisa o impede de ser um intelectual respeitado mundialmente: seus músculos.


Sylvester Stallone é um dos intelectuais de carreira mais controvertida da história do cinema. Teve um infância difícil (foi expulso de 14 escolas antes dos 13 anos) e uma adolescência ainda pior (aos 15 seus colegas o elegeram “O mais provável de acabar na cadeira elétrica”). Começou a carreira de ator como o marginal de metrô do filme Bananas, contracenando com ninguém menos que Woody Allen.  Penou em papéis pequenos até escrever e estrelar um dos maiores sucessos da história do cinema, Rocky, um lutador. O filme, que venceu os Oscars de melhor filme e direção em 1977 marcou sua carreira para sempre, para o bem e para o mal. Foi considerado pela crítica séria na época o novo Marlon Brando. Mas crítica e público jamais conseguiram separar protagonista do filme do seu criador, e a partir de então Stallone não conseguiu mais fugir dos papéis de ação no cinema, em filmes em que seus músculos contavam mais que o cérebro. “As pessoas não me dão crédito como alguém inteligente, então porque deveria desiludi-las?”, diz ironicamente. Assim, Stallone vai vivendo na prisão que ele mesmo construiu.

Extremos
Já ganhou prêmios também concedidos a diretores consagrados como Takeshi Kitano e Abbas Kiarostami, e também é o maior campeão de Framboesas de Ouro da história, premiação que lhe deu o título de Pior Ator do Século20.
Alguns o acusam de ser pouco expressivo, mas são observadores superficiais, que não percebem as sutilezas de sua atuação, e também desconhecem o fato de ele ter paralisia facial causada pelo fórceps no seu parto, o que mantém um de seus olhos caído e seu sorriso sempre torto.


Quase todos os críticos ressaltam o paralelo entre os recentes Rocky e Rambo –  que mostram um homem velho e esquecido –  com a carreira de Sylvester Stallone. Mas não é o fato de não vender tanto quanto antigamente que Stallone foi diminuído de alguma forma. Sua grandeza apenas se consolida a cada dia, deixando seu nome na história para quem souber admirá-lo.

Pintura abstrata é hobby de Stallone
No seu filme Rambo IV, o personagem Rambo quer esquecer o seu passado e começa r nova vida do zero, até que as circunstâncias o forçam a retomar seu destino violento.
Seria um autoretrato?
Do mesmo modo, Stallone quer ser um ator, diretor e roteirista, mas as circunstâncias o fazem encarnar o mesmo personagem sempre e sempre.

Frases:
“Rambo não é violento. Eu vejo Rambo como um filantropo.”

“Na verdade eu sou uma manifestação da minha própria fantasia”.

“O único artista feliz é um artista morto.”





“Depois que eu morrer, provavelmente voltarei como um pincel.”

50 personagens mais odiados da literatura

O site Library Science Degree fez uma despretensiosa - mas divertida - lista com os 50 personagens mais odiados da história da literatura. No site há comentários sobre todos os personagens. Me pergunto quais entrariam numa possível lista nacional.

Ei-los abaixo:


1.) Bella Swan e Edward Cullen
Livro: Da série “Crepúsculo”
Autor: Stephenie Meyer

2.) Cholly Breedlove
Livro: The Bluest Eye
Autor: Toni Morrison

3.) Holden Caulfield
O apanhador no campo de centeio
Autor: J.D. Salinger

4.) Scarlett O’Hara
Livro: E o vento levou
Autor: Margaret Mitchell
Para cada fã que acha Scarlett O'Hara romântica e admirável, há um outro que acha ela uma figura completamente egoísta e repugnante, com poucas qualidades redentoras.

5.) Iago
Livro: Otelo
Autor: William Shakespeare

6.) Anita Blake
Livro: série Anita Blake
Autor: Laurell K. Hamilton

7.) Tom Buchanan
Livro: O Grande Gtsby
Autor: F. Scott Fitzgerald
Em um livro repleto de personagens intencionalmente insuportáveis, Tom Buchanan, com suas hipocrisias racistas e misóginos destaca-se como particularmente ofensivo.

8.) Heathcliff
Livro: O Morro dos ventos uivantes
Autor: Emily Brontë
Alguns fãs de "O morro dos ventos uivantes" tendem a interpretar Heathcliff como uma figura romântica, mas uma grande parte dos leitores o odeiam por seu comportamento abusivo, manipulador e negligente para com as pessoas em sua vida.

9.) Dolores Umbridge
Livro: série Harry Potter
Autor: J.K. Rowling

10.) Dorian Gray
Livro:  O retrato de Dorian Gray
Autor: Oscar Wilde
Quando Dorian Gray finalmente recebe sua mórbida punição depois de uma vida transbordando de frivolidade e hedonismo, nenhum leitor lamenta.


11.) Albert
Livro:  A Cor Púrpura
Autor: Alice Walker

12.) Ayla
Livro:  série Os filhos da Terra
Autor: Jean M. Auel

13.) John Willoughby
Livro:  Razão e Sensibilidade
Autor: Jane Austen

14.) Rhett Butler
Livro:  E o vento levou
Autor: Margaret Mitchell

15.) Karen Brewer
Livro:  série  Babysitter’s Club
Autor: Ann M. Martin

16.) Humbert Humbert
Livro:  Lolita
Autor: Vladimir Nabokov

17.) Daisy Buchanan
Livro: O Grande Gatsby
Autor: F. Scott Fitzgerald

18.) Catherine Earnshaw
Livro: O Morro dos ventos uivantes
Autor: Emily Brontë

19.) Sr. e Sra. Samsa
Livro: A Metamorfose
Autor: Franz Kafka
Quando Gregor Samsa acorda uma manhã transformado em um gigantesco inseto, apenas sua irmã Grete mostra-lhe algum grau de simpatia. Seus pais, por outro lado, reagem com desdém. Seu pai até mesmo lhe joga uma maçã que fica presa em sua carapaça. Considerando o quanto ele se esforça para cuidar deles, isto adiciona uma nova dimensão da tragédia da história de Samsa.

20.) Estella Havisham
Livro: Grandes Esperanças
Autor: Charles Dickens

21.) Robert “Sentinela” Reynolds
Livro: Marvel

22.) Broud
Livro:  Clan of the Cave Bear
Autor: Jean M. Auel

23.) Edward Rochester
Livro: Jane Eyre
Autor: Charlotte Brontë

24.) Mrs. Ferrars
Livro:  Razão e Sensibilidade
Autor: Jane Austen

25.) Bob Ewell
Livro: O Sol é para todos
Autor: Harper Lee


26.) Hamlet
Livro: Hamlet
Autor: William Shakespeare
Embora seja o protagonista, muitos leitores pensam de Hamlet como o precursor elisabetano do movimento emo, pois se lamenta constantemente sobre a sua triste vida, sem nunca realmente fazendo muito para mudar para melhor. Claro, considerando as peças de Shakespeare o que são, sua verdadeira complexidade muitas vezes desafia essa percepção.

27.) Voldemort
Livro: série Harry Potter
Autor: J.K. Rowling

28.) Patrick Bateman
Livro: O Psicopata Americano
Autor: Bret Easton Ellis

29.) Grande Irmão
Livro: 1984
Autor: George Orwell
Apesar de ser uma metáfora para um governo totalitário e não uma pessoa real, os cidadãos da distópica Oceania o consideram como tal. Agentes do Grande Irmão eram capazes de entrar na cabeça das pessoas e condená-las simplesmente por pensar contra o coletivo.

30.) Rufus
Livro: “The Lame Shall Enter First”
Autor: Flannery O’Connor

31.) Stanley Kowalski
Livro: Um bonde chamado Desejo
Autor: Tennessee Williams

32.) Emma Bovary
Livro: Madame Bovary
Autor: Gustave Flaubert
33.) Beth March
Livro: Mulherzinhas
Autor: Louisa May Alcott

34.) Napoleon
Livro: A Revolução dos Bichos
Autor: George Orwell

35.) Ignatius J. Reilly
Livro: Uma conspiração de estúpidos
Autor: John Kennedy Toole

36.) Romeo Montague
Livro: Romeu e Julieta
Autor: William Shakespeare

37.) Madame Defarge
Livro: Um conto de duas cidades
Autor: Charles Dickens

38.) Coringa
Livro: DC 

39.) O’Brien
 Livro: 1984
Autor: George Orwell

40.) Faye Greener
Livro: O dia do gafanhoto
Autor: Nathanael West

41.) Miss Havisham
Livro: Grandes Esperanças
Autor: Charles Dickens

42.) Jack Merridew
Livro: O Senhor das moscas
Autor: William Golding

43.) Robert Langdon
Livro: Anjos e Demônios, o Código Da Vinci, o Símbolo Perdido
Autor: Dan Brown

44.) Abigail Williams
Livro: As bruxas de Salém
Autor: Arthur Miller

45.) Amanda Wingfield
Livro: The Glass Menagerie
Autor: Tennessee Williams

46.) Kay Scarpetta
Livro: série Kay Scarpetta
Autor: Patricia Cornwall

47.)  Mrs. de Winter
Livro: Rebecca
Autor: Daphne du Maurier


48.) Melanie Hamilton Wilkes
Livro: E o vento levou
Autor: Margaret Mitchell

49.) Godot
Livro: Esperando Godot
Autor: Samuel Beckett
Que tipo de homem deixa seus amigos se perguntando sobre o seu paradeiro por toda a eternidade?

50.) Diabo
Livro: Bíblia
Autor: Vários

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Solo de Clarineta - Erico Verissimo

Biografias são sempre muito diferentes quando escritas pelo próprio biografado ou por um terceiro. Autobiografias costumam ser mais reflexivas e condescendentes; já as biografias abusam de detalhes da vida e da romancização dos fatos. Solo de Clarineta , a primeira parte da autobiografia de Erico Verissimo acaba mesclando um pouco todas essas características. No livro ele conta partes de sua vida desde a infância e também bastidores dos seus livros, além de fazer considerações sobre política, guerra, psicologia e outros temas. Em Solo de Clarineta são reveladas algumas curiosidades, como: o nome do célebre personagem Rodrigo Cambará, de O Tempo e o Vento era inicialmente Rodrigo Severo. Também ficamos sabendo que Eberbach, a cidade natal do Dr. Winter, personagem de O Continente, foi escolhida quase que aleatoriamente. Anos mais tarde, quando o livro foi traduzido para o Alemão, Verissimo recebeu uma carta do prefeito, convidando-o para ser hóspede oficial.  Erico tanbém foi reserva do time de futebol do Bonsucesso, em circusntâncias estranhas. Sobre O Tempo e o Vento, é interessante ver como Erico já sabia que esta seria sua obra mais importante. Sobre sua obra-prima ele diz:


“Apesar de ser descendente de campeiros, sempre detestei a vida rural, nunca passei mais de cinco dias numa estância, não sabia e não sei ainda andar a cavalo – para escândalo e vergonha de meu avô Aníbal – desconhecia e ainda desconheço o jargão gauchesco. Embora admire os trabalhos isolados de escritores como Simões Lopes Neto, Darcy Azambuja, Ciro Martins e Vargas Neto, nunca morri de amores pelo regionalismo e, para ser sincero, tinha e ainda tenho para com esse gênero literário as minhas reservas, pois acho-o limitado e, em certos casos, com um certo odor e um imobilismo anacrônico de museu. (...) Concluí que a verdade sobre o passado do rio Grande do Sul devia ser mais viva e bela que a sua mitologia. E quanto mais examinava a nossa História, mais convencido ficava da necessidade de desmitificá-la.”

Ainda sobre o regionalismo:
“Faltava aos nossos “guascas” densidade psicológica, esse tipo de conflito capaz de produzir drama. Sobre homens assim vazios – concluí, então, levianamente – era impossível escrever um romance que tivesse caráter e nervo."

Sobre a opção de ser escritor:
“Concluí que jamais viria a ser um bom desenhista, isto é, um criador. Se havia para mim alguma esperança, essa estava no quadrante das letras e particularmente no da ficção. No entanto eu insistia em apenas traduzir. Era ainda uma atitude de caramujo. Recusando produzir literatura própria, eu nada mais fazia que buscar proteção à sombra de nomes literários consagrados. De resto, refletia eu, quem no mundo poderia interessar-se pelo que eu viesse a criar, pois já chegara à firme conclusão de que me faltava talento para a poesia e carecia de cultura para o ensaio. Restava-me tentara ficção.”

Outros trechos:



“Nem tudo que acontece na vida real torna-se necessariamente verossímil quando transposto para o plano da ficção.”


“Minha mãe me mandou um prato de comida. Mal toquei nos alimentos, pois sempre achei indecente e até repugnante misturar morte com coisas de comer. O bife vinha de um animal morto. Era carne de cadáver.”


“Como pode um romancista do sexo masculino – perguntou-me alguém um dia – descrever com verdade e autenticidade os sentimentos duma mulher? Expliquei-lhe que, no meu caso, sempre que tinha que fazer isso eu procurava ser essa mulher. Meu interlocutor me olhou meio espantado e calou-se, aparentemente insatisfeito, e talvez até meio desconfiado de minha masculinidade.”

Geralmente ele elogia a maioria das pessoas que cita, mas aqui sobram algumas raras críticas:
“Ninguém negará grandeza a importância literária à obra de Ernest Hemingway. Mais de um crítico, porém, tem mencionado o fato de não se encontrar nos contos, novelas e romances desse escritor uma única personagem feminina verossímil, viva, plenamente realizada na sua condição de fêmea. Creio que isso se deve à obsessão que o grande escritor americano tinha de provar que era macho – o caçador de leões, o explorador, o aficionado das corridas de touros. No momento de descrever suas personagens do sexo oposto ele recusava, imagino, liberar seu componente feminino e meter-se no corpo delas, sentir como elas, amar como elas...
No fundo talvez isso fosse um sinal de insegurança quanto à sua própria condição de macho, o temor de que alguém pudesse pôr em dúvida sua virilidade.”


“Gilberto Freyre, que escreveu um artigo simpático mas um tanto ambivalente sobre O Continente, insinuou que o fato de eu ter escolhido um sobrado como centro do romance era um sinal de que a influência da ficção nordestina já se fazia sentida no sul do país. O ilustre sociólogo não levou em conta a possibilidade de que o autor tivesse tido em sua vida de menino um sobrado, como foi exatamente o meu caso.

 
“Minha mãe me mandou um prato de comida. Mal toquei nos alimentos, pois sempre achei indecente e até repugnante misturar morte com coisas de comer. O bife vinha de um animal morto. Era carne de cadáver.”


“Como pode um romancista do sexo masculino – perguntou-me alguém um dia – descrever com verdade e autenticidade os sentimentos duma mulher? Expliquei-lhe que, no meu caso, sempre que tinha que fazer isso eu procurava ser essa mulher. Meu interlocutor me olhou meio espantado e calou-se, aparentemente insatisfeito, e talvez até meio desconfiado de minha masculinidade.”

Este trecho é bastante inusitado:
“Conservava muito viva na memória uma cena que se passara havia uns dois anos sob os andaimes de uma construção que se fazia nas vizinhanças da nossa casa. Trabalhava nela como pedreiro um mulato de seus dezoito anos, alto e magro, com olhos de tuberculoso. Chamava-se Perez, e um de seus depravados prazeres era o de, na hora de folga entre o almoço e o turno da tarde, proporcionar aos meninos das redondezas um exibição grátis de seu falo. Éramos todos rapazotes de cinco a oito anos, quando muito. Ficávamos olhando numa seriedade silenciosa, entre assustados e curiosos, para o pênis do Perez, aquela coisa que ele tinha entre as pernas, aquele bicho latejante, aquela lingüiça viva que ele nos mostrava sorrindo, e que nenhum de nós ousava sequer tocar com a ponta dos dedos. Saíamos daquela exibição um tanto humilhados, pensando nos nossos membrinhos diminutos e comparando-os com o minhocão do pedreiro.”




quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Quase a mesma coisa - Umberto Eco

Umberto Eco escreveu um livro sobre tradução chamado Quase a mesma coisa (Record, 2007). Claro que esse é o título traduzido, o original é "Dire quasi la stessa cosa". Quem já leu trabalhos de não-ficção de Eco sabe que ele usa extenso material de pesquisa para ilustrar suas teses, o que, às vezes, pode deixar a leitura um tanto maçante. Gostaria de dizer que a leitura de Quase a mesma coisa é fluida, mas, para o leitor comum, ela empaca em insistentes detalhes acadêmicos. Mesmo assim, muitos trechos são interessantes tanto para o tradutor profissional como para o leigo. Só o fato de, em suas quase 500 páginas, o autor jamais usar a batidíssima expressão "traduttore-traditore" é um ponto para o livro. Abaixo, um trecho da obra:




“Quando comecei a trabalhar em uma editora, chegou a mim uma tradução do inglês, cujo original eu não podia controlar por ter ficado nas mãos do tradutor. Comecei, de todo modo, a ler para ver se o italiano “fluía”. O livro contava a história das primeiras pesquisas sobre a bomba atômica e a certa altura dizia que os cientistas, reunidos em determinado lugar, começaram os trabalhos fazendo “corse di treni” [corrida de trens]. Parecia-me estranho que pessoas que deveriam descobrir os segredos do átomo perdessem tempo com jogos tão insossos. Donde, recorrendo a meu conhecimento do mundo, inferi que os tais cientistas deviam estar fazendo outra coisa. Nesse momento, não sei se me ocorreu uma expressão inglesa que conhecia ou se fiz, antes, uma curiosa operação: tentei retraduzir mal, para o inglês, a expressão italiana e logo me ocorreu que aqueles cientistas fizeram training courses, ou seja, cursos de atualização, o que seria mais razoável e menos dispendioso para os contribuintes americanos. Naturalmente, assim que tive o original nas mãos pude ver que era isso mesmo e providenciei para que o tradutor não fosse pago por seu trabalho imundo."

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Lobo Antunes - Os Cus de Judas

Uma leitura que me tirou da zona de conforto foi Os Cus de Judas, do português António Lobo Antunes. Numa primeira impressão me deparei com uma prosa truncada, difícil, pedante, de estrutura confusa. Mas, aos poucos, a poesia e a riqueza do seu texto se desvendaram. Nunca havia lido nada igual.


Quem ama os livros arrastados, de vocabulário excessivo do Saramago, por exemplo, vai desconfiar da sintaxe de Lobo Antunes. Não é à toa que, em Portugal, os leitores se dividem em Saramaguistas convictos e Lobantunistas ferrenhos. São água e vinho. O vinho, no caso, é Antunes. Já outros preferem o insípido e inodoro.

Mas do que trata Os Cus de Judas? No livro, temos a narração em primeira pessoa de um médico português na guerra de Angola. Mas isso não interessa. Ou melhor, a trama do livro não é o mais importante. O que importa é como ele escreve.

As suas comparações, por exemplo, são inusitadas:
“quartos de hotel impessoais como impressões de psicanalistas”.
“O passado vinha-me à memória como um almoço por digerir nos chega em refluxos azedos à garganta.”
“...clávículas tão salientes como as sobrancelhas de Brejnev.”
“As cortinas das janelas ondulavam acenos evasivos de coreógrafo entediado..”

A sua linguagem, muito próxima do poético, não alivia a realidade narrada, pelo contrário, por vezes a torna mais dura e incisiva.
Mais alguns trechos do livro Os Cus de Judas:
A noite surge depressa demais nos trópicos, após um crepúsculo fugaz e desinteressante como o beijo de um casal divorciado por mútuo consentimento. As palmeiras que bordam a baía acenavam as rémiges das folhas em voos preguiçosos, as traineiras abandonavam o cais arrotando o gasóleo do jantar, o néon dos cabarés da Ilha piscava as pálpebras demasiado pintadas, em cujo chamamento ansioso ecoavam os apelos das mulheres das barracas de tiro do Parque mayer, cujas vozes roucas me povoaram os sonhos, na adolescência, de crocitos apavorantes. O calor vestia-nos os gestos de algodão pegajoso, e a água chegava a ferver dos canos num assobio de gêiser. Jantei sozinho num restaurante da Baixa, repleto de homens nédios, de pescoços a luzirem de suor como os dos bois minhotos, e dedos povoados de anéis de pedras pretas ou vermelhas, que submergiam no caldo verde bigodes de lontras esfomeadas. Um negro corcunda tentava sem sucesso impingir de mesa em mesa bonecos talhados a canivete de uma vulgaridade de plástico, até o empregado o enxotar com o guardanapo que pendurava do ombro, tão escuro de nódoas e fuligem como o lenço de um tomador de rapé. Um velhote calvo, de carranca de chafariz, abocanhava num canto uma mulata protegida da sua sanha por três voltas de colares, ocupada a devorar um sorvete gigantesco, monstruoso de frutas cristalizadas e de cremes, com uma cereja obscena no topo. Uma máquina elétrica de discos vomitava aos guinchos pasodobles de clube recreativo paranóico, e com o pano de fundo dessas sugestões toureiras que me obrigavam a berrar no bocal urros tremendos de cadeira de dentista, telefonei à hospedeira da TAP que me esperava, de Logan’s em riste, num terceiro andar do Bairro Prenda, metida nuns jeans tão apertados que quase se percebia, através do tecido, o pulsar das veias das coxas. Um cão minúsculo, parecido com um rato pernalta e magro, reteso de hostilidade azeda, veio ladrar-me, furioso, aos tornozelos, e eu pensei em levá-lo de presente ao alferes catanguês para o café da manhã de domingo, no intuito amável de lhe variar a dieta. A rapariga agarrou nele por uma pata, atirou-o para o interior da cozinha onde o bicho tombou num ganido lancinante de fraturas múltiplas, e fechou a porta com um pontapé; o passo seguinte seria, provavelmente, esmagar-me os testículos com uma joelhada de artes marciais, e no dia imediato encontrariam o meu cadáver, horrorosamente mutilado, no meio de móveis em desordem e de pedaços de garrafas.


...


Entretanto, e se estiver de acordo, talvez possamos tentar fazer amor, ou seja, essa espécie de ginástica pagã que nos deixa no corpo, depois de acabado o exercício, um gosto suado de tristeza no desastre suado dos lençóis: a cama não range, é improvável que a válvula de descarga do andar de cima vomite a esta hora o conteúdo limoso do seu estômago, perturbando as carícias sem ternura que são como que o motor de arranque do desejo, nenhum de nós sente pelo outro mais do que uma cumplicidade de tuberculosos num sanatório, feita da melancólica tristeza de um destino comum, já vivemos demais para correr o risco idiota de nos apaixonarmos, de vibrarmos nas tripas e na alma exaltações de aventura, de nos demorarmos tardes a fio diante de uma porta fechada, de ramo de flores em riste, ridículos e tocantes, a engolir cuspes aflitos de José Matias. O tempo trouxe-nos a sabedoria da incredulidade e do cinismo, perdemos a franca simplicidade da juventude com a segunda tentativa de suicídio, em que acordamos num banco de hospital sob o olho celeste de um S. Pedro de estetoscópio, e desconfiamos tanto da humanidade como de nós mesmos, por conhecermos o egoísmo azedo do nosso caráter oculto sob as enganadoras aparências de um verniz generoso.

...


Sofia, instalo-me no sanitário como uma galinha a ajeitar-se no seu choco, abanando as nádegas murchas das penas na auréola de plástico, solto um ovo de ouro que deixa na louça um rastro ocre de merda, puxo a válvula de descarga, cacarejo contentamentos de poedeira, e é como se essa melancólica proeza me justificasse a existência, como se sentar-me aqui, noite após noite, diante do espelho, a observar no vidro os vincos amarelos das olheiras e as rugas que em torno da boca se multiplicam numa fina teia misteriosa, idêntica à que cobre de leve os quadros de Leonardo, me assegurasse que ao fim de tantos anos de deixar-te permaneço vivo, durando, Sofia, neste aquário de azulejos que o foco do teto obliquamente ilumina, peixe morto à tona, de órbitas apodrecidas a boiarem.

O que já disseram:
Evidentemente Os Cus de Judas foi um escândalo. Toda a crítica bem pensante torceu o nariz para o seu suposto baixo nível. António Lobo Antunes foi acusado de desleixado e de escrever “como brasileiro”, o que para certos escalões engravatados e decadentes significa escrever mal. Mas não era apenas isto, Os Cus de Judas feria a pasmaceira lusitana, tocava nas feridas gangrenadas do colonialismo, na profunda lesão deixada pelas guerras coloniais e não recuava frente à rotina moribunda de uma sociedade que se contentava a ruminar glórias do século XVI e a chafurdar na mediocridade, temendo o futuro.
Márcio Souza


Aqui, trechos de uma entrevista com o escritor português:


Como o senhor define a sua obra?

Lobo Antunes:
Não entrei na literatura para ser um escritor qualquer. Quero ser maior que Tolstoi e Joyce – e acho que todo escritor tem de pensar assim, senão ele não produz nada. Ele tem de pensar em coisas grandes. Comecei a escrever porque queria revolucionar o romance, subverter a literatura, transformá-la em algo que ainda não existia, ofuscar os antepassados. Quero colocar tudo num livro, o mundo inteiro, minha vida inteira. Quero praticar a obra de arte total que imaginava Richard Wagner. Escrevo livros impossíveis. Se me ocorre uma história que me sinto incapaz de formular, é aí que começo um livro. Quero escrever sobre o que não entendo. É assim que vou contornando os problemas, e chamam isso de estilo experimental. Na verdade, é uma atitude de enfrentamento. E de liberdade. É por isso que não creio na profundidade. O que existem são infinitas superfícies superpostas. Quando você se aprofunda demais em um assunto, acaba saindo pelo outro lado, de mãos abanando. Escrever é um ato impossível, porque tudo o que interessa vem antes das palavras, como as intenções, os desejos, a loucura. Os poetas são maiores porque conseguem transferir essas coisas inomináveis para as palavras. Mas escrever também é um ofício, como o de carpinteiro. É preciso conhecer a técnica, para abandoná-la. Todo grande livro é uma reflexão profunda sobre a arte de escrever. Cada livro meu tem de ser um mundo.

Como o senhor escreve?

Lobo Antunes:
Preciso de pelo menos quatro horas diárias para escrever, com caneta. Nesse período, não posso ser interrompido. Escrevo sem pensar. Antes, eu montava os projetos de livros com personagens e um resumo de cada capítulo. Hoje parto de nada. É como se me deixasse levar por uma mão misteriosa. Gosto do estado crepuscular, entro o sono e a vigília, em que você não sabe exatamente onde está – e as ideias vem à tona. É por isso que, quando interrompo o trabalho, gosto de deixar a frase ao meio, para poder retomá-la no dia seguinte. É mais fácil que ter diante de si um capítulo acabado – e daí ter aquela paralisia da página em branco. Adoro escrever quando estou cansado. É no cansaço que as boas ideias aparecem.





sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Entrevistas de Playboy - Piquet X Senna

Mesmo quem não acompanhava nos anos 90 as corridas de Fórmula-1 sabia da rixa entre os pilotos brasileiros Ayrton Senna e Neslon Piquet. Piquet já era um veterano quando Senna entrou em cena (ops). Senna logo virou ídolo, deixando Piquet em segundo plano.

Com personalidades bem diferentes, ambos deram entrevistas à revista Playboy. Primeiro Piquet, em 1988 e Senna dois anos depois. Nelson Piquet nunca deu muita bola para a opinião dos outros, sendo, na opinião de alguns, excessivamente sincero, o que lhe rendeu vários desafetos, entre eles o próprio Ayrton Senna.

Depois que morreu em um acidente de trabalho em 1994, Senna se tornou ídolo nacional, virando nome de escolas, viadutos, ruas e avenidas em centenas de cidades do país. Mas poucos sabem o que se passava na cabeça dele. Na entrevista abaixo, é possível vislumbrar um pouco da sua mente, o que, na verdade, é assustador: ele tinha visões, delírios, admirava o presidente Collor e, enfim, cada país tem o ídolo que merece...



As entrevistas foram publicadas no livro As 30 melhores entrevistas de Playboy (Editora Abril, 2005, 313 páginas)


Nelson Piquet 1988

Para quem você corre, Piquet?
Para mim, oras. Corro porque gosto, porque me dá prazer. O dia em que eu me encher o saco, largo tudo e vou embora.

Sempre foi assim?
Claro. Para quem mais você acha que eu ia correr?

Não sei. Para a sua família, para os amigos que te deram força no começo da carreira...
Eu poderia muito bem dedicar as vitórias à minha mãe ou ao meu pai, que já morreu, mas seria pura demagogia [fala olhando para o filho mais velho, Geraldo, que assiste à entrevista]. Isso só serve para o cara ler no jornal e ficar babando. Na verdade, por que eu ganhei? Ganhei porque trabalhei como um filho da puta, porque sofri pra cacete... Eu ganhei pra mim, porra!


Ayrton Senna 1990

Esse seu, digamos, diálogo com Deus começou em 1988, em Mônaco, quando você liderava a prova com quase um minuto de vantagem sobre o Alain Prost e bateu o carro sozinho no guard-rail?
Exatamente. Aquilo não era apenas um erro de pilotagem. Era a consequência de uma luta interna que me paralisava e tornava vulnerável. Eu tinha uma abertura para Deus e outra para o diabo. O acidente foi um sinal de que Deus estava ali me esperando, para me dar a mão. Bastava eu dizer que queria. Foi uma experiência incrível. Ouvir falar de Deus é uma coisa. Mas eu experimentei, diante dos meus olhos, dos meus sentidos – o que é bem diferente. Não existe equívoco, não existe dúvida, não existe mal-entendido. É uma verdade.

Que outras experiências você teve?
Se conversar sobre minha vida amorosa é algo extraordinário, falar sobre Deus é ainda mais fora do comum. É muito, muito especial. É meu mundo. Aos olhos das pessoas comuns, que não têm fé, tudo é loucura, bobagem. Por isso, fica uma situação incômoda para mim. Ao mesmo tempo, por que não dividir experiências com as pessoas que, como aconteceu comigo, procuram a vida nova?
E como são os sinais que você recebe?
Vou contar uma experiência recente. No Grande Prêmio de Mônaco deste ano, em maio, percebi nos treinos de sábado que meu carro estava desequilibrado, sem possibilidade real de vitórias na corrida de domingo. A McLaren do Gerhard Berger, meu companheiro de equipe, apresentava os mesmos problemas. Bem, vencer em Montecarlo era muito importante e expliquei isso a Deus. Ele sabe de tudo o que se passa em nosso coração. Mas é necessário se entregar através do coração. Foi o que eu fiz. Quando chegou o domingo, ainda no warm-up, tive uma sensação e uma visão. Consegui me enxergar de fora do carro. Em volta da máquina do meu corpo, existia uma linha branca, uma espécie de onda, que se traduziu para mim como força e proteção.

Você conseguiu se ver?
Hã-hã.

Saiu do seu corpo?
Hã-hã. Entrei em outra dimensão. Tive uma paz incrível, e a certeza de que estava equilibrado, de corpo e alma, inteiro. Não tinha canto sobrando, estava tudo redondo, em harmonia. Geralmente, antes de largar, fico na minha, quietão. Dessa vez, até sorri. Saí do boxe, com aquele mesmo carro que um dia antes apresentou problemas, e os defeitos... pá! desapareceram! Estavam lá, mas não me incomodavam. Depois da corrida, o Berger veio conversar comigo, e disse que o carro dele continuou trepidando. Eu apenas sorri, não entrei em detalhe. Só que, comigo, não aconteceu nada.

Você lê a Bíblia diariamente?
Não. Mas, às vezes, mais do que uma vez por dia. É nela que aprendo pouco a pouco sobre o deus poderosos, que criou o céu, a Terra, o universo.

Como você se sente sendo patrocinado pela Marlboro?
A marca está ali no carro, mas não forço ninguém a fumar. A Philip Morris deu uma contribuição inestimável ao automobilismo. Foi ela que financiou a divulgação do esporte e deu a tanta gente a possibilidade de curtir uma corrida. Vejo por esse lado, e não pelo lado negativo que os outros enxergam, de que o cigarro é ruim, faz mal para a saúde.

Mas é ruim ou não?
É indiscutível que não traz muitos benefícios à saúde. Por outro lado, você vê gente que pára de fumar e engorda.

Já que estamos falando de patrocínio, quanto você tinha guardado no Banco Nacional quando o Plano Collor resolveu fechar as torneiras do país?
O suficiente para sentir a paulada. Mas foi uma medida necessária. O presidente Collor é um grande líder, e há muito tempo o Brasil precisava de alguém assim. Acho que ele é muito bom.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A Origem - um filme que faz pensar


A Origem, de Christopher Nolan, era para ser mais um filme de ação banal, com tudo a quem tem direito um filme de ação banal, não fosse pelos espectadores e críticos. Esses espectadores conseguiram ver no filme muito mais do que ele tem, na realidade, a oferecer.

Em A Origem, tudo é falso: a realidade se confunde com o mundo dos sonhos e quase nunca se sabe se a ação decorre no mundo real ou apenas no inconsciente dos personagens. Mas a falsidade vai além da trama, ela continua na própria ideia de que estaríamos diante de um argumento original (quando já se viu isso tudo antes), de que o filme é complexo e profundo (quando é apenas propositalmente confuso e superficial), de que faz pensar.

Esse
"faz pensar" é que dá continuidade à falsidade mencionada acima. O que o filme dá, ao espectador de pouca estrada, é a falsa ideia de fazê-lo pensar, mesmo que ele não tenha qualquer pista sobre o que estaria pensando. A suposta complexidade de A Origem é a mesma de livros como O Código DaVinci ou Quando Nietzsche Chorou. O leitor/espectador/consumidor se vê envolvido por uma miscelânea de teorias velhas e bobas com roupagem brilhante de originalidade em uma narrativa que o leva confortavelmente pela mão o tempo todo. Como ele não foi exposto a nada disso antes, fica maravilhado com este mundo novo de "ideias".

O filme estrelado por Leonardo Di Caprio tem 148 minutos de duração. Ok, você dirá, uma trama complexa exige esse tempo mesmo para que seja pacientemente explicada. O problema é que em mais da metade do filme não ocorre nada além de perseguições de carro, explosões e tiroteios. Ah, sim, claro, não podemos nos esquecer das cenas de luta. Só que todas essas perseguições de carro, explosões, tiroteios e cenas de lutas são idênticas às cenas de ação de qualquer outro filme comercial e ainda duram muito mais, algumas com dez minutos ininterruptos sem diálogos, sem acrescentar nada ao filme. (diferente, por exemplo, da perseguição de carro em À prova de Morte, de Tarantino, divertida e criativa). Assim, tornam-se extremamente enfadonhas e tediosas. Mas é isso, creio eu, que o espectador médio quer ver: entretenimento puro. Mas apareceram alguns que, culpados por essas doses maciças de fotogramas direcionados a autistas, querem enxergar algo mais. E o roteiro colabora com toda essa lenga lenga pseudointelectual. Dar o nome de Ariadne a uma das personagens é um desses truques baratos.

Quanto às teorias do inconsciente propriamente ditas, são uma baboseira sem fim, com invencionices sem fundamento (como aquela das várias camadas do sonho) rasgando A Interpretação dos Sonhos, de Freud, em mil pedaços. O engraçado é que o sonho de todo mundo é idêntico à realidade, sem tirar nem por, com exceção feita, claro, aos tiroteios, perseguições e explosões. Aliás, quando foi a última vez que você sonhou com algo meramente parecido com isso? Pois é, para justificar a presença de tantas explosões nos sonhos do filme, o roteiro faz uma das acrobacias mais esdrúxulas da história do cinema, digna das comédias absurdas. Falando em comédia, chama a atenção essa frase do diretor: "Fiz questão de filmar em película e sem abusar de efeitos digitais". Só pode ser piada. Mas os fãs, inebriados, levam tudo muito a sério.

Surpreendentemente, os críticos também entraram nessa onda, fazendo avaliações positivas sobre o filme. Luis Antônio Girón, da Época, não fez uma crítica, mas simplesmente uma (mal-disfarçada) promoção comercial do filme, ou pelo menos soa assim o seu texto na revista, onde abundam adjetivos como "intrigante", "impressionante", "genial", também instiga o espectador a ir mais de uma vez ao cinema.


No fim das contas, A Origem é sim um filme que faz pensar. Quando estava no cinema não consegui parar de pensar: O que eu estou fazendo aqui?!