A revista britânica Empire acaba de lançar uma lista dos 50 piores filmes de todos os tempos. Como toda lista desse tipo, não é séria e em muitos casos é injusta, mas pode ser divertida. Os filmes foram votados por leitores, então a maioria dos filmes é bastante recente (décadas 00 e 90). A maioria também é do gênero comédia e aventura/ação. Claro que você já viu coisa bem pior do que está na lista (e é provável que até goste de alguns), mas o critério aqui parece ser mais a expectativa e o orçamento do filme.
Às vezes quero ver um filme justamente pelo seu potencial de chorabilidade. Sim, eu gosto de chorar em filmes. Quando isso acontece, parece que o filme valeu a pena, pois pelo menos me tocou de alguma forma. Mas não é um filme pra baixo, é aquele que dá uma tristeza gostosa, sem te carregar pra depressão. E prefiro quando sou pego de surpresa, detesto perceber que estavam tentando me manipular, e que eu DEVERIA chorar justo naquela cena, entre os minutos 55 e 58. Isso aconteceu, por exemplo, no badalado mas desonesto Menina de Ouro. (Aliás, por que será que tudo que o Clint Eastwood faz é levado ultra a sério nos últimos anos? Só porque ele ficou velho começou a merecer mais respeito e consideração? Será que os críticos se sentem covardes ao criticar um idoso?) Moça pobre e desacreditada vence na vida com ajuda de treinador durão (e também desacreditado) e no auge da carreira se descobre portadora de uma doença terminal. Poxa, já tínhamos visto o enredo desse filme uma centena de vezes na Sessão da Tarde. Se fosse numa novela mexicana, ninguém levaria a sério. Prefiro aquelas cenas em que me descubro solitário no meu lacrimejo, onde não me perceba vítima de manipulação (mesmo que na verdade esteja sendo).
Mas, falando assim, até parece que sou um chorão de cinema, mas não é bem assim. Não é qualquer filme que tem esse efeito sobre mim. Mas tem um filme que me pegou de jeito. Mar Adentro, do diretor Alejandro Amenábar. Fui sozinho ao cinema e, quando chegou na cena do “voo pela janela” com a trilha de Nessun Dormatocando a todo volume, desabei. Está certo que tinha parado com o lítio na época e meu humor estava meio desestabilizado. Mesmo assim, quis me testar e fui ver o filme de novo, na mesma semana, no mesmo cinema. Resultado: quase desidratei na minha poltrona. Anos depois, comprei o DVD e me preparei para o filme de novo. O filme continua excelente, mas eu já estava totalmente anestesiado. Seria a falta da tela grande? Não sei.
Mas enrolei até aqui só para mencionar o filme que fui assistir ontem, Amor Sem Escalas (Up in the air), de Jason Reitman, mesmo diretor de Juno e Obrigado por fumar. O título em português engana, ainda mais com o cartaz feito para o cinema brasileiro, que dá a entender que se trata de uma comédia romântica tradicional, e que, por ser com o George Clooney, possivelmente terá um final feliz. Mas, como na vida, nem tudo é o que parece. Clooney interpreta um profissional especializado em demitir pessoas justamente numa época de grande recessão nos EUA. Como está sempre em viagem, passa mais tempo no avião que em casa, sem raízes familiares ou sentimentais de qualquer espécie. O elenco principal está muito bom, assim como todos os coadjuvantes. Os diálogos inteligentes são raros de se ver no cinema americano hoje em dia.
O filme também tem o mérito de tratar uma condição masculina poucas vezes tratada com honestidade no cinema. Há humor, há romance, mas também é sobre o vazio da solidão e a angústia do tempo. Não, não é um filme para chorar. É pior: é para deixar o choro preso na garganta, sem ter onde derramá-lo.
O texto abaixo é um trecho do livro A Arte do Romance (Nova Fronteira, 1988, tradução de Tereza Bulhões Carvalho da Fonseca), de Milan Kundera, um dos poucos livros de ensaios do autor tcheco.
Em 1968 e 1969, A Brincadeira foi traduzido em todas as línguas ocidentais. Entretanto, quantas surpresas! Na França, o tradutor reescreveu o romance enfeitando meu estilo. Na Inglaterra, o editor cortou todas as passagens de reflexão, eliminou os capítulos musicológicos, mudou a ordem das partes, recompôs o romance. Um outro país. Encontro meu tradutor: ele não sabe uma só palavra de tcheco.“Como você traduziu?” Ele responde: “Com meu coração”, e me mostra minha foto que tira de sua carteira. Ele era tão simpático que quase cheguei a acreditar que se podia realmente traduzir graças a uma telepatia do coração. Na verdade, era mais simples: ele tinha traduzido do texto reescrito em francês, assim como o tradutor na Argentina.Um outro país: traduziram do tcheco. Abro o livro e por acaso caio no monólogo de Helena. As longas frases, cada uma das quais ocupa e minha escrita um parágrafo inteiro, estão divididas em uma multidão de frases simples... O choque causado pelas traduções de A Brincadeira me marcou para sempre. Felizmente, mais tarde, encontrei tradutores fiéis. Mas também, infelizmente, menos fiéis... Contudo, para mim que praticamente não tenho mais o público tcheco, as traduções representam tudo.É por isso que, há alguns anos, me decidi enfim a pôr ordem nas edições estrangeiras de meus livros. Tal coisa não se fez sem conflitos nem sem fadiga: a leitura, o controle, a revisão de meus romances, antigos e novos, nas três ou quatro línguas estrangeiras que sei ler ocuparam inteiramente todo um período de minha vida...
O autor que se empenha em cuidar das traduções de seus romances corre atrás das inúmeras palavras como um pastor atrás de um rebanho de carneiros selvagens; triste figura para si mesmo, risível para os outros. Desconfio que meu amigo Pierre Nora, diretor da revista Lê Débat, compreendeu bem o aspecto tristemente cômico da minha existência de pastor. Um dia, com mal dissimulada compaixão, me disse: “Escreva afinal seus tormentos e escreva alguma coisa para mim. As traduções obrigaram você a refletir sobre cada uma de suas palavras. Escreva pois seu dicionário pessoal. Dicionário de seus romances. Suas palavras-chaves, suas palavras-problemas, sus palavras-amores...”
Eis aí, está pronto.
FEIO
Após tantas infidelidades de seu marido, tantas histórias penosas com tiras, Tereza diz: “Praga ficou feia.” Tradutores querem substituir a palavra feia pelas palavras “horrível” ou “insuportável”. Parece-lhes ilógico reagir a uma situação moral com um julgamento estético. Mas a palavra feio é insubstituível: a onipresente feiúra do mundo moderno, misericordiosamente velada pelo hábito, surge brutalmente no menor de nossos momentos de desespero.
FLUIR
Em uma carta, Chopin descreve sua estada na Inglaterra. Ele toca nos salões e as senhoras exprimem sempre seu encantamento com a mesma frase: “Oh, que bonito! Flui como a água” Chopin se irritava com isso, como eu quando ouço apreciar uma tradução com a mesma fórmula: “isto flui bem.” Os adeptos da tradução “que flui bem” objetam sempre aos meus tradutores: “Não se diz isto desta forma em alemão (em inglês, em espanhol, etc.)!” Eu lhes respondo: “Mas em tcheco também não se diz assim!” Roberto Calasso, meu muito caro editor italiano, repete: reconhece-se uma boa tradução não por sua fluidez mas por todas essas fórmulas insólitas e originais (que “não se dizem”) que o tradutor teve a coragem de conservar e defender. Até mesmo o insólito da pontuação. Abandonei outrora um editor apenas porque ele tentava mudar meus pontos-e-vírgulas em vírgulas.
Quando pego um livro, bem antes de começar a ler seu conteúdo principal eu já começo a ler outros detalhes do livro: a quarta capa, as orelhas (se houver), o ano de publicação, o nome na língua original, o catálogo sistemático, o tradutor, o revisor, o responsável pela capa, o autor da ilustração ou foto da capa, o tipo de papel e fone usada, etc. Há uma outra coisa que desperta ainda mais a minha atenção antes da leitura: o índice onomástico.
Índice onomástico, como sabem, é aquele índice com as referências a todos os nomes próprios contidos no livro. Sempre leio ele inteiro antes de entrar no livro em si. É uma forma de captar o espírito do livro por antecipação.
É normal encontrar o índice onomástico em biografias. As do Fernando Morais (autor de Chatô, Olga, O Mago) sempre vêm com o tal índice. E acabo sentindo falta de um índice desse tipo em alguns livros de ficção. Então eu próprio comecei a fazer isso em alguns livros. E um autor que rende bons índices onomásticos é o japonês Haruki Murakami, cujas obras sempre contém várias menções à cultura pop, como bandas, músicas, escritores, marcas, etc.
Duvido que essa minha preferência posso interessar a muita gente, mesmo assim coloco abaixo o índice onomástico de Norwegian Wood (Objetiva, tradução de Jefferson José Teixeira):
Literatura:
Escritores:
Alighieri, Dante – 43
Balzac, Honore de – 43
Bataille, Georges – 312
Capote, Truman – 42
Chandler, Raymond– 42
Conrad, Joseph – 43, 73, 250
Dickens, Charles – 43
Dostoievski, Fiodor – 48
Ésquilo – 234
Hesse, Hermann – 284
Faulkner, William – 245
Fitzgerald, Scott– 42, 43, 142
Mann, Thomas – 106
Marx, Karl – 221, 319
Mishima, Yukio – 42
Oe, Kenzaburo–42, 82
Racine – 41
Shakespeare, William – 23
Sófocles – 234
Takahashi, Kazumi– 42
Updike, John – 42
Vian, Boris – 312, 316
Williams, Tennessee – 310
Livros:
Apanhador no campo de centeio, O – 82, 129
Capital, O – 220, 319
Centauro - 42
Grande Gatsby, O – 42, 43, 145, 288
Guerra e Paz – 82
Montanha Mágica, A – 106, 116, 135
Música:
Bach, Johan Sebastian – 139, 141, 153, 157, 185, 346, 351
Bacharach, Burt – 202, 351
Brach Boys, The – 351
Beatles – 7, 114, 139, 176, 202, 343, 350
Bee Gees – 107
Bennet, Tony – 205
Bernstein, Leonard – 103
Billy Joel – 7
Brahms – 50, 183
Charles, Ray – 351
Coltrane, John – 288
Cream – 175
Davis, Miles – 66, 266
Debussy – 350
Dylan. Bob – 351
Evans, Bill – 137
Gaye, Marvin – 107
Gershwin, George – 351
Harison, George – 350
Jobim, Tom (Bossa Nova) – 140, 340, 351
King, Carole – 351
Lennon, John – 202, 350
Mahler, Gustav – 114
Mancini, Henry – 49, 349
McCartney, Paul – 202, 350
Monk, Thelonius – 190, 212
Morrison, Jim – 66, 210
Mozart, Wolfgang Amadeus – 153, 176, 312, 313
Ravel, Maurice – 312, 350
Rolling Stones – 206
Simon & Garfunkel – 175
Vaughan, Sarah – 273
Wonder, Stevie – 351
Canções:
And I love her - 350
Blackbird – 350
Close to you – 351
Desafinado – 202, 340
Eleanor Rigby – 351
Five Hundred Miles – 98
Fool on the Hill – 350
Garota de Ipanema – 202
Here Comes the Sun – 176, 350
Hey Jude – 350
Julia – 139, 350
Jumping Jack Flash – 206
Lemon Tree – 98
Michelle – 139, 343, 350
Norwegian Wood – 7, 139, 140, 257, 343, 350, 351
Nowhere Man – 139, 350
Penny Lane – 350
Proud Mary – 170
Puff, The Magic Dragon – 98
Raindrops keep falling on my head – 351
Something – 350
Up on the roof – 350
When I’m sixty-four – 350
Yesterday – 350
Cinema:
Filmes:
Casablanca – 140
Noviça Rebelde (The sound of music) – 175
Primeira noite de um homem, A (The graduate) – 106
- Jade: Forever in My Heart, de Jade Goody, publicado pela Harper Collins. - A vida é ouro, é o nosso tesouro, de Wilson Santos, publicado pela Martins Livreiro Editora.
O fotógrafo francês Stephane Lallemand fez algumas recriações de quadros famosos do pintor do século 19 Jean Auguste Dominique Ingres. Abaixo, suas versões para A Banhista e La Grande Odalisque.